10 meses atrás · Ana Paula Vieira · 0 Comentários
Continuar a viver após a perda de um filho
Em geral as pessoas definem as suas vidas pelas grandes metas profissionais: uma promoção, o emprego dos seus sonhos, uma mudança de carreira; ou por grandes acontecimentos: o casamento, o nascimento de um filho… Todavia, para algumas pessoas, a vida é redesenhada por acontecimentos inesperados, como é o caso dos pais em luto.
Os pais enlutados têm uma linha que demarca claramente as suas vidas
Num qualquer momento crucial acontece o inimaginável e, nesse instante, tudo é redefinido de forma arbitrária e irreversível, sem que tenham escolha ou voto na matéria. O rumo das suas vidas altera-se irremediável e definitivamente num micro momento, numa determinada data, e nada voltará a ser como antes. Para os pais enlutados há um marco distinto que separa o tempo e a vida, antes e após a morte do(a) filho(a). Num instante tudo se desmorona, ante os seus olhos, como um castelo de cartas. A felicidade saboreada a cada dia com as pequenas conquistas alcançadas por aquele ser que cuidávamos e protegíamos, desaparece. Os planos mais elementares, as expectativas mais básicas perdem sentido e o nosso mundo é virado do avesso naquele momento em que o nosso filho(a) morre.
Muitas são as interrogações que surgem
Como sobreviver à perda de um filho? A vida voltará a ter sentido? Que mal fiz eu para merecer um castigo tão duro? Seremos capazes de voltar a sentir-nos equilibrados, tranquilos e serenos? Voltaremos a sentir optimismo para com a vida?
Infelizmente, por muito contra natura que nos pareça, este género de fenómeno sempre existiu, desde os primórdios da humanidade, e continuará a acontecer a muitos outros pais no futuro, o que demonstra ser razoável acreditar que é possível retomar a nossa vida, dar-lhe um outro rumo. Quando o meu filho morreu, em Abril de 2006, eu fui atingida por uma dor excruciante e avassaladora, o meu coração ficou despedaçado – essa dor cega penetrou tão profundamente a minha alma que durante muito tempo pensei que jamais superaria aquela perda – e a dor excruciante seria minha companheira de jornada para sempre. Todavia, com o tempo, e muita ajuda, aprendi a conviver com a minha dor e a reapreciar a vida, tal como ela se me apresenta.
O processo de luto pela morte de um filho é uma caminhada profundamente solitária que cada um dos pais tem de fazer pelo vale tenebroso do seu próprio desespero. Cada progenitor vivencia o luto à sua maneira, de forma individual e distinta por um caminho de sofrimento, mais ou menos sinuoso e acidentado, iluminado por uma luz ténue que, gradualmente, se vai intensificando e se transformando num verdadeiro raio de sol à medida que o tempo avança.
Como é que se faz esse caminho de esperança?
Através da vivência das emoções associadas ao processo de luto, enfrentando os nossos demónios, medos e fantasmas, reconhecendo e aceitando as nossas fragilidades – recorrendo a ajuda quando ela é necessária. Devemos recorrer ao apoio de familiares e amigos, a grupos de apoio ou de partilha, participar em seminários ou workshops, ou procurar apoio especializado de conselheiros de luto que proporcionam um lugar seguro aos pais que perderam filhos, compreendem as emoções e o sofrimento vivenciado e ajudam a adquirir habilidades para lidar com a dor e a perda.
Precisamos de reaprender a viver com a nova realidade, de cuidar de nós próprios física, mental e emocionalmente e, acima de tudo, devemos manter o nosso filho connosco enquanto completamos a jornada da nossa vida. Devemos estabelecer limites sobre o que vamos tolerar e manter na nossa vida, e ter consciência de que o luto pela morte de um filho é uma jornada individual e geralmente longa.
É natural que haja oscilações ao longo do processo de luto, e que haja períodos de maior intensidade de dor, particularmente no início e primeiros dois anos, nas datas mais significativas como os aniversários, o Natal ou o Dia de Finados. Todos os pais enlutados passam por essas provações, mas a forma como escolhem prosseguir, é determinante para o desenrolar do processo.
O denominador comum que todos nós, pais em luto, partilhamos, é a necessidade de encontrar uma centelha de esperança que possamos alimentar e manter a brilhar. O momento em que cada um de nós encontra essa centelha de esperança – a luz ao fundo do túnel – onde e como a encontramos, diferem e ocorrem em momentos diferentes da nossa jornada de luto. Mas, acredito que todos nós a encontramos.
Um dia apercebemo-nos que o fardo está um pouco mais leve, lembramo-nos do nosso(a) filho(a), começamos a rir-nos de coisas que ele(a) disse ou fez, e damo-nos conta de que já não nos sentimos mal com isso. Aos poucos o riso e a alegria vão voltando e ficando, diferentes de outrora, é certo, mas já sem culpa. Esses momentos envolvem-nos gentilmente e, lentamente começa a nascer a esperança. A minúscula centelha de esperança começa a brilhar dentro de nós de forma quase imperceptível e vai ganhando intensidade até se tornar a luz que nos indica o caminho de serenidade. A pouco e pouco a vida ganha outro sentido, voltamos a sentir micro momentos de felicidade…