Blog - Ana Paula Vieira

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O que é ser emocionalmente inteligente?

2 meses atrás · ·0 Comentários

O que é ser emocionalmente inteligente?

Ser emocionalmente inteligente é muito mais do que possuir um conjunto de abordagens e estratégias que servem para identificar e gerir melhor as nossas próprias emoções. Trata-se, acima de tudo, de um poder pessoal com o qual podemos adquirir de uma verdadeira consciência emocional a partir da qual podemos construir relacionamentos mais fortes e respeitosos, além de ser essencial para nos sentimos mais seguros, bem-sucedidos e felizes.

Ser emocionalmente inteligente consiste na capacidade de percepção, atenção, expressão e regulação das emoções, e compreensão e regulação das emoções,  próprias e de outros.

O que é inteligência emocional?

Certamente a maioria de nós já ouviu falar ou leu sobre Inteligência Emocional ou até já fez algum curso relacionado com o tema. Ela está presente em muitos contextos da nossa vida pessoal e social diária. Esta inteligência revela-se nas interacções com os outros, em família, com amigos, na escola ou universidade, no trabalho, ou qualquer contexto de interacção social.

As primeiras definições de inteligência referiam-se às capacidades cognitivas e intelectuais, deixando de lado as competências emocionais. O psicólogo e investigador Howard Gardner, num esforço de analisar e descrever melhor o que é a inteligência, desenvolveu, durante os anos da década de 1980, a Teoria das Inteligências Múltiplas. Numa fase inicial, Gardner (1983) identificou sete tipos de inteligência: musical, linguística, lógico-matemática, visuo-espacial, corporal-cinestésica, intrapessoal e interpessoal.  Isto levou a uma classificação da inteligência em diferentes tipos, como a lógico-matemática, linguística e emocional.

O debate em torno das inteligências pessoais de Gardner, conduziu à definição básica de Inteligência Emocional (IE). O psicólogo Salovey expandiu as aptidões pessoais a 5 domínios: a capacidade de conhecer as próprias emoções; a capacidade de lidar com essas emoções e sentimentos; a automotivação; a capacidade de reconhecer emoções nos outros; e de lidar com as emoções dos outros. Para Salovey estas eram as habilidades necessárias para se ser emocionalmente inteligente.

Uma definição de Inteligência Emocional

Apesar das pesquisas terem sido desenvolvidas por diversos investigadores, usualmente este tema é, quase que instantaneamente, relacionado com o nome do psicólogo Daniel Goleman. Para ele, Inteligência Emocional significa a capacidade de se motivar, perseverar diante das frustrações, controlar impulsos e regular o humor, e também de ser capaz de sentir empatia e confiar nos outros.

Daniel Goleman define a Inteligência Emocional como “a capacidade de reconhecer os nossos sentimentos e os dos outros, de nos motivarmos e de gerirmos bem as emoções em nós e nas nossas relações.” (1)

O termo Inteligência Emocional foi cunhado por Michael Beldoch em 1964, que o utilizou em artigos científicos, muito antes de Goleman publicar o seu famoso livro “Inteligência Emocional” em 1995. Estes artigos falavam da comunicação e da sensibilidade emocional, das suas implicações e da forma como determinam a nossa personalidade e os nossos relacionamentos. Desde então, o tema avançou de forma notável, dando lugar a diferentes abordagens e críticas.

A inteligência emocional é muito mais do que um mero conjunto de abordagens e estratégias que servem para identificar e gerir melhor as próprias emoções. A implicação que esta perspectiva psicológica, social e motivacional teve no nosso dia a dia supera possíveis brechas que possam existir na teoria de Daniel Goleman.

Componentes da Inteligência Emocional

Goleman elencou cinco pilares que se referem à definição anterior, na qual foram identificados vários componentes.

Autoconhecimento emocional

Autoconhecimento emocional refere-se à capacidade de identificar, conhecer e expressar de maneira adequada e confiável os nossos próprios sentimentos e emoções, e também os seus efeitos. O primeiro passo é conhecermo-nos, analisar as nossas emoções e as acções que fazemos como resposta aos estímulos.

Devemos estar conscientes de que a Inteligência Emocional é um processo gradual e que varia de pessoa para pessoa. É essencial conhecermos bem as próprias emoções e sentimentos, e as acções que originam. Só assim poderá ter respostas adequadas, para si e para os outros.

Autocontrolo emocional

Autocontrolo emocional é a capacidade de controlar os próprios impulsos e regular as emoções.

Tenha em mente que todos nós temos momentos stressantes ou em que nos sentimos ansiosos por algum motivo. Aprender a lidar com as emoções e regulá-las, colocá-la-á na direcção certa conforme cada situação, fará toda a diferença entre o equilíbrio e a disfunção. Seja optimista, procure ver sempre o lado positivo das coisas e lembre-se que cada situação tem diversas saídas.

Automotivação

Automotivação é o que nos permite alcançar os nossos próprios objectivos, através da gestão adequada das emoções. Ao saber utilizar adequadamente as suas emoções terá mais facilidade em alcançar os seus objectivos, sem passar por cima de ninguém.

É essencial aprender a responder aos seus estímulos, para depois decidir como quer agir para atingir as suas metas. Por outro lado, temos um processo inconsciente, onde experienciamos os gatilhos emocionais a que reagimos, expressando as emoções de forma instantânea. Isto muitas vezes gera arrependimentos e desvios das nossas metas.

Consciência Social ou Empatia

Empatia é definida como a capacidade de responder adequadamente às necessidades expressas pelos outros, bem como a capacidade de partilhar esses sentimentos.

Aprender a se colocar no lugar do outro, de reconhecer as emoções dos outros e compreender os seus comportamentos, torna-nos mais sensíveis e abertos.

Relações interpessoais

Relações interpessoais neste caso, é a capacidade de nos relacionarmos eficientemente com os outros, fazendo com que se sintam bem e gerando emoções positivas.

Saber se relacionar interpessoalmente é outro ponto chave para o sucesso. Ao perceber e gerir as emoções dos outros será capaz de manter boas relações. Isso irá criar um ambiente positivo à sua volta, melhorando não só a sua qualidade de vida, mas também contagiando aqueles que estão ao seu redor.

Benefícios da Inteligência Emocional

Agora que compreendeu quais são os 5 pilares da Inteligência Emocional, já deve ter extraído alguns benefícios de ter uma IE bem desenvolvida. Todos temos desafios diários, metas e prazos para cumprir, família e filhos com quem lidar, reuniões onde participar e decisões para tomar. Estamos a ser constantemente observados e avaliados e vivemos quase sempre sob pressão. Para lidarmos com as pressões diárias, a chave é aplicar os pilares da Inteligência Emocional, o que lhe trará vários resultados positivos.

Principais benefícios

Veja alguns dos principais benefícios que obterá ao desenvolver melhor a sua Inteligência Emocional:

  •  Diminuirá os seus níveis de ansiedade e de stress;
  •  Evitará discussões e melhorará os seus relacionamentos interpessoais;
  •  Terá mais empatia pelo outro e maior compreensão;
  •  Irá obter mais equilíbrio emocional;
  •  Ganhará maior clareza dos objectivos e acções;
  •  Irá melhorar a sua capacidade de tomar decisão;
  •  Melhorará a sua gestão de tempo e produtividade;
  •  Aumentará o nível de comprometimento com as suas metas;
  •  Terá mais senso de responsabilidade e uma melhor visão do futuro;
  •  Elevará a autoestima e autoconfiança.

Conclusão

Ser emocionalmente inteligente envolve a aquisição de uma verdadeira consciência emocional com a qual podemos construir relacionamentos mais fortes e respeitosos. A IE, além de nos permitir a auto-regulação emocional, é uma chave de poder com a qual nos sentimos mais seguros, bem-sucedidos e felizes.

Uma vez que consigamos nos tornar mais conscientes das emoções, nossas e dos outros, e do papel que desempenham nas nossas acções, podemos usar essa conscientização e reflectir. Reflectir sobre o que aconteceu e sobre o que poderia ter tornado o resultado mais positivo é útil para prevenir dissabores futuros.

Os investigadores concluíram que estas competências emocionais têm enorme influência nas habilidades adaptativas e cognitivas das pessoas. Por isso, lembre-se que ponderar antes de tomar decisões trar-lhe-á diversos benefícios e prevenirá o surgimento de conflitos ou de arrependimento pelos seus actos. E, quando estiver sob pressão, o mais importante é procurar manter a calma. Encontre uma distracção, faça uma actividade prazerosa e canalize a sua ansiedade de forma positiva.

Se gostou do tema e/ou do artigo, por favor deixe o seu comentário ou envie um e-mail. Adoraria saber a sua opinião.

 

Refeências Bibliográficas:

Daniel Goleman, Trabalhar com Inteligência Emocional (Lisboa: Círculo de Leitores e Temas e Debates, 1998, 5ª edição, 2012.

Emoções no ambiente de trabalho

2 meses atrás · ·0 Comentários

Emoções no ambiente de trabalho

Os profissionais de gestão de recursos humanos e de outras áreas de estudo do mundo do trabalho chamam às competências emocionais “soft skills”. Esta é uma competência reconhecidamente essencial em todas as situações da vida, e especialmente, no ambiente de trabalho. Mas saber gerir as emoções no ambiente de trabalho, as próprias e as dos outros, muitas vezes é tudo menos suave.

Passamos mais tempo no trabalho do que com a família.

A maioria de nós passamos mais tempo no trabalho (pelo menos era esse o cenário antes da pandemia), do que com a nossa família. Se somarmos as horas de trabalho e o tempo passado nos trajectos, e adicionarmos o tempo despendido em formação profissional para progredir na carreira, facilmente concluiremos que passamos mais tempo no trabalho do que em qualquer outro lugar. No entanto, para a maioria das pessoas, o local de trabalho não proporciona um ambiente agradável, saudável ou emocionalmente bem gerido. Muitos de nós temos tido empregos onde a atmosfera emocional foi tão mal gerida que afectou todos os aspectos possíveis do nosso trabalho e, não raras vezes, com impacto na nossa própria vida.

Sabemos que as emoções são aspectos vitais da nossa capacidade de pensar, compreender o mundo, sentir e agir adequadamente. As competências emocionais são as aptidões mais importantes que podemos possuir. No entanto, a maioria de nós não foi explicitamente ensinado acerca dos estados emocionais em contexto de trabalho; supostamente, deveríamos simplesmente absorvê-los por osmose cultural. E, apesar de muitos de nós termos sido ensinados a reprimir ou a suprimir as emoções e não a sermos emocionalmente ágeis. Estranhamente, apesar de não aprendermos sobre as emoções no ambiente de trabalho, temos espectativas em relação ao estado emocional das pessoas em contextos profissionais.

Expectativas de trabalho emocional

Tipicamente temos expectativas implícitas em relação às pessoas em funções de atendimento ou de venda ao público. Assumimos que devem ser empáticas para com o cliente e mostrar que se preocupam connosco, mesmo que ganhem o salário mínimo e que nós sejamos ricos; mesmo que estejam bem vestidos e que nós tenhamos acabado de sair da praia, com o cabelo ainda molhado. A nossa posição como cliente – ou mesmo como potencial cliente – independentemente da nossa aparência ou do nosso comportamento, confere-nos o direito a receber gratuitamente empatia e respeito.

É um facto que, fruto das mudanças que se operaram nas nossas vidas devido à situação pandémica, os estados emocionais de muitas pessoas assemelham-se mais a montanhas russas. No entanto, repare nas situações carregadas de tensão emocional das pessoas que a servem, e das pessoas a quem serve. Provavelmente há regras emocionais muito específicas para o seu trabalho (mesmo que não sejam expressas), para os proprietários e funcionários das empresas que visita (especialmente restaurantes e lojas), mesmo que nunca tenha posto os olhos em cima de ninguém nesse estabelecimento antes.

As nossas expectativas em relação às emoções dos profissionais e à empatia profissional estão tão enraizadas que sabemos o que esperar. Sabemos como cada pessoa numa determinada área de negócio se deve comportar para connosco, como nos devemos comportar para com elas, e como os outros clientes se devem comportar em relação a todos nós. Todos temos um papel muito específico a desempenhar, e um desempenho emocional e empático particular imprescindível.

Verifique por si mesmo

No seu próprio trabalho, seguramente que tem expectativas muito específicas em termos de desempenhos emocionais e empatia para si próprio, para os seus colegas de trabalho, ou para os seus colaboradores e clientes, e para os gestores ou patrões. No entanto, embora saibamos como todos se devem comportar, este conhecimento não é claro. As nossas emoções e estados emocionais fazem parte do que damos (e do que se espera de nós) no local de trabalho. Mas os séculos de deseducação emocional ainda nos assombram, e continuam a ser cometidos imensos erros neste âmbito.

Muitos dos problemas observáveis nos locais de trabalho giram em torno das emoções relacionadas com o trabalho que ou não está a ser feito (o empregado problemático), ou está a ser realizado, mas não é valorizado (o empregado sobrecarregado ou o empregado que está a trabalhar em excesso). O local de trabalho pode tornar-se realmente miserável quando há problemas na esfera da gestão das emoções.

Exigências de trabalho emocional no local de trabalho

Em muitos casos, as regras relativas às questões emocionais exigem que nos comportemos de forma inautêntica uns com os outros e em relação a nós próprios. Isto não quer dizer que as emoções relacionadas com o trabalho não sejam autênticas ou sejam tóxicas: Em termos empáticos, todos nós nos esforçamos por nos ajudarmos uns aos outros a funcionar (e a nos tornarmos mais competentes) no mundo social, e por vezes isso significa mostrar emoções que não estamos propriamente a sentir ou esconder as que sentimos.

No entanto, o trabalho emocional é trabalho, e se não temos consciência de quanto trabalho emocional fazemos (ou quanto se espera que os outros façam por nós) então o burnout ou o esgotamento empático é uma possibilidade muito real para todos. Este trabalho emocional quotidiano é o que faz com que as relações fluam sem problemas; é o que nos ajuda a nos relacionarmos e a nos apoiarmos uns aos outros, e é o que nos ajuda a amadurecer como seres emocionais, sociais e empáticos. As emoções ajudam-nos em tudo aquilo que fazemos e cada emoção traz-nos uma forma única de inteligência, competência e engenho.

Valorização do trabalho emocional

Ao observar empaticamente o seu mundo social, faça um inventário do trabalho emocional que desenvolve e pergunte-se a si própria/o: O meu trabalho emocional está a ser reconhecido por alguém? Está a ser apreciado? É sequer referenciado? Poderá tornar-se mais intencional e consciente? E será que resulta bem com toda a gente?

O trabalho emocional é um aspecto intrínseco das aptidões de empatia e relacionamento, mas tende a ser completamente inconsciente e, como tal, tende a permanecer no mundo oculto de subtilezas, subjectividades, gestos e expectativas não expressas. Todavia, existem formas de tirar o trabalho emocional das sombras.

A natureza oculta do trabalho emocional

O trabalho emocional no local de trabalho é determinante para a produtividade e eficiência. Empaticamente falando, já vi e já experienciei situações de emoções mal geridas, de emoções injustas em acção e empatia imposta, inautêntica, com impacto profundo na qualidade do ambiente de trabalho. Agora percebo que a empatia imposta é um factor importante e integrante da não rentabilidade e ineficiência no local de trabalho, mas simplesmente não sabia como lhe fazer referência de forma correcta.

Durante décadas interroguei-me muitas vezes sobre a atmosfera emocionalmente conservadora (quando não tóxica) no local de trabalho, mas as referências em termos de literatura ou pesquisa relativas à natureza do trabalho emocional eram escassas. Ao nível do ensino académico, quer em Gestão de Recursos Humanos ou Gestão das Organizações quase não despendem tempo com trabalho emocional e exigências de empatia forçada, pois o foco principal é a organização administrativa e a forma de lidar com empregados problemáticos. Portanto muito pouca compreensão dos cambiantes das emoções no trabalho e de como um local de trabalho sem apoio pode criar uma atmosfera emocional improdutiva que depois criará empregados problemáticos!

Há também muito pouca consciência da razão pela qual as pessoas se esgotam: a maioria das respostas e prevenção do “burnout” que me ensinaram incidiam em como tornar os empregos mais variados e interessantes, mas quase não havia consciência do potencial de “burnout” em trabalhos sem apoio emocional, pouco justos ou de empatia forçada.

O que dizem os peritos

A questão da gestão dos estados emocionais no local de trabalho sempre foi algo que me suscitou interesse. Na minha formação profissional extracurricular em gestão de equipas ou gestão de conflitos também não encontrei qualquer menção relativa ao trabalho emocional ou ao seu efeito de contágio na disposição moral no local de trabalho. Até mesmo a Inteligência Emocional que é referênciada há várias décadas como crítica para o bom desempenho profissional, continua a não ser muito valorizada em termos de formação. Infelizmente, temos especialistas e processos no local de trabalho para quase todos os outros problemas que existem no local de trabalho, excepto para a problemática do trabalho emocional.

Os profissionais de Recursos Humanos cujo trabalho é humanizar o local de trabalho não foram formados ou treinados de forma fiável para compreender o trabalho emocional. Os profissionais de Organização de Processos cuja função é planear e organizar o trabalho e/ou equipas, não têm qualquer formação de base sobre o trabalho emocional, que é a habilidade empática central que torna o local de trabalho funcional (ou, mais comummente, disfuncional). Os Orientadores de Carreira, cujo trabalho é ajudar-nos a encontrar trabalho, normalmente não têm qualquer formação directa ou compreensão do trabalho emocional. E, em resultado disso, acaba por haver muitos locais de trabalho onde o ambiente emocional e empático não é gerido de forma eficaz.

As emoções são aspectos vitais da nossa capacidade de pensar, decidir, comportar e agir, e cada uma delas traz-nos dons e habilidades específicas e, se não compreendermos que as emoções vêm para nos ajudar, podemos culpar as emoções pelos problemas. Os gestores podem aprender a identificar as cargas emocionais dos seus colaboradores e, com base nessa informação, começar a criar locais de trabalho emocionalmente bem geridos que não esgotem as pessoas desnecessariamente.

Criar um local de trabalho emocionalmente produtivo

A chave para criar um local de trabalho emocionalmente consciente e produtivo que respeite as necessidades sociais e emocionais de todos é empenhar-se para que as cargas emocionais sejam reconhecidas, apreciadas e geridas adequadamente. Com estes objectivos em mente, eis algumas abordagens para o ajudar a criar um ambiente emocionalmente bem regulado no local de trabalho que funcione para todos.

  1. Tenha consciência das cargas emocionais relacionadas com o trabalho que os seus colegas levam para casa. Em muitos (ou na maioria?) dos locais de trabalho, as pessoas devem gerir as suas próprias emoções, acalmar as emoções dos outros e oferecer empatia gratuita ao longo do dia. Isto é óptimo quando o ambiente é bom, mas se as pessoas estiverem a ser drenadas emocionalmente o trabalho emocional pode ser fatigante.
  2. Apoie o direito das pessoas de se sentirem confortáveis no trabalho. A maioria dos modelos de local de trabalho baseiam-se na poupança de custos ou em tendências actuais de organização no local de trabalho – mas raramente se focam na realidade que as pessoas vivem no trabalho. Se as pessoas trabalham 35 a 40 horas por semana, passam mais tempo no trabalho do que em casa ou com as suas famílias, por isso devem estar física e emocionalmente confortáveis no seu ambiente de trabalho.
  3. Esteja atento às exigências emocionais no seu local de trabalho. Identifique qualquer trabalho emocional não apoiado e reconheça-o abertamente. Que emoções são exigidas na interacção com clientes, fornecedores e colegas de trabalho? É necessária empatia para com os clientes, a qual não é reconhecida? Existe algum apoio para as pessoas que estão sobrecarregadas ou a caminho de um esgotamento? E que tipo de regras emocionais existem, e para quem?
  4. Identifique e reconheça qualquer situação de desigualdade emocional. Há excepções às regras emocionais em diferentes níveis da organização? É permitido a uma pessoa ou grupo expressar (por exemplo) raiva, depressão ou ansiedade, enquanto os outros devem demonstrar apenas satisfação e complacência? A empatia está disponível para todos ou é dirigida unicamente aos clientes e fornecedores? Na medida do possível, reconheça abertamente qualquer exigência de empatia ou trabalho emocional desigual ou diferenciado.
  5. Promova conversas abertas sobre o impacto do trabalho nas emoções. O esgotamento ocorre quando as pessoas não estão autorizadas a identificar ou a falar sobre as suas emoções no trabalho ou sobre as exigências de empatia na profissão. Pode ajudar a conceber um local de trabalho mais saudável, mais funcional e mais bem regulado do ponto de vista emocional se puder simplesmente falar aberta e honestamente sobre as emoções e a empatia no trabalho.

A verdade é que geralmente passamos mais tempo no local de trabalho do que com a nossa família e amigos. E todos nós merecemos viver bem, ser bem tratados e ver o nosso trabalho emocional valorizado como o trabalho essencial que é. Enquanto líder ou gestor, pode ganhar consciência do trabalho emocional que faz e do trabalho emocional e de empatia que exige aos outros e, ao fazê-lo, pode desenvolver um ambiente mais solidário, emocionalmente bem regulado e verdadeiramente funcional para todos!

Luto colectivo

4 meses atrás · ·0 Comentários

Luto colectivo

A COVID-19 teve e continua a ter um profundo impacto nas nossas vidas. Não sabemos o que vai emergir desta pandemia, mas sabemos que todos perdemos muito. Perdemos tanto que estamos agora a lidar com um luto colectivo.

Normalmente, quando pensamos no luto,  pensamos na perda (por morte) de um ente querido. No entanto, podemos sentir pesar por qualquer coisa, física ou imaterial, a que estejamos emocionalmente apegados. A questão é nunca nos tínhamos apercebido da quantidade de coisas a que estávamos apegados. Tomámos tantas coisas como adquiridas e, de um dia para o outro, a nossa realidade mudou.

Cada um de nós está a enfrentar perdas significativas

Cada um de nós está a enfrentar o luto por perdas significativas, seja a perda das nossas rotinas, dos nossos locais de culto, do empregou ou da estabilidade financeira, do convívio com os amigos, ou seja a perda de um ente querido sem poder dizer o último adeus…

Há cerca de dois meses atrás ouvi o autor David Kessler dizer num podcast :

“Estamos todos a lidar com a perda colectiva do mundo que conhecíamos. … Não sei como é que isto vai mudar, mas vai. Vamos encontrar sentido; vamos sair do outro lado disto … mas o mundo a que todos estávamos habituados já desapareceu.”

Quando o ouvi, as suas palavras já fizeram todo o sentido, mas à medida que o tempo avança, fazem ainda mais. Para quem não sabe quem é David Kessler, ele é, muito provavelmente, O Especialista de Luto por excelência. Ele tem trabalhado com luto e trauma desde o início da sua carreira, é co-autor, juntamente com a psiquiatra Elizabeth Kubler-Ross, dos livros “Life Lessons: Two Experts on Death and Dying Teach Us About the Mysteries of Life and Living e “On Grief and Grieving” e, recentemente, escreveu “Finding Meaning – the sixth stage of grieving”. David Kessler não só tem dedicado a sua vida a apoiar pessoas enlutadas, ao estudo e investigação da temática do luto, como experiênciou várias das perdas mais duras e significativas que um ser humano vivencia – a perda da mãe na adolescência e do seu filho mais novo há alguns anos atrás.

O que estamos a experienciar agora é o mesmo que sentimos quando sofremos uma perda significativa

Segundo Kessler, o que estamos a experienciar agora, os sentimentos que surgem são os mesmos que normalmente experienciamos quando sofremos uma perda significativa. A única diferença é que agora é um luto global. Nós apegamo-nos tanto a pessoas como a coisas ou a estilos de vida. E, embora alguns dos nossos apegos possam ser considerados triviais e sem importância para alguns, há muitas pequenas perdas que experienciamos e que representaram uma grande parte das nossas vidas.

Estamos gratos pelo que ainda temos mas podemos lamentar a perda das nossas vidas como costumavam ser. Sentimos falta de muitas das nossas velhas rotinas e do prazer que advém de muitas delas. Temos falta da confraternização com os nossos amigos, de ir tomar café, de almoçar fora e de estar perto uns dos outros. Faz-nos falta o convívio com os colegas de trabalho. É um luto colectivo que nos afecta a todos. Quando alguém perde um ente querido, os sentimentos de perda são agravados pela impossibilidade de poder abraçá-lo ou confortá-lo fisicamente ou mesmo de ir ao funeral. Já não podemos contar com os ombros dos nossos amigos para poder chorar. Lamentamos a perda do contacto humano e talvez nunca nos tivéssemos apercebido da importância que isso tinha para nós. Tomámos tanto por garantido.

É normal ficarmos transtornados com as perdas

De facto, é normal ficarmos transtornados. Afinal de contas, o nosso mundo foi virado do avesso. Perdemos o nosso sentido de segurança e protecção. Preocupamo-nos com os nossos filhos e com o impacto que isto terá sobre eles. Adiámos ou perdemos projectos, desfizeram-se sonhos. Sentimos falta das coisas que costumávamos fazer para nos distrairmos e aliviar o nosso stress, tais como ir ao ginásio, dançar, ir ao cinema, assistir a espetáculos, assistir ou participar em eventos desportivos. A lista é interminável. Entristecemo-nos com aspectos do nosso futuro que, aparentemente, mudaram para sempre. Perdemos tanto e é perfeitamente normal chorar o que perdemos. Podemos esperar encontrar alívio no futuro, mas as coisas já não voltam a ser como eram.

É normal que sintamos falta e lamentemos a perda destas partes das nossas vidas. Muitas destas actividades ajudaram a definir quem somos, como nos vemos a nós próprios, e como os outros nos vêem. O nosso luto certamente não atinge a magnitude do luto após uma morte, e consequentemente, muitos de nós recusamos reconhecer as nossas perdas não relacionadas com a morte.

Sentimo-nos culpados e envergonhados com este luto…

Sentimo-nos culpados, envergonhados, fracos ou constrangidos, porque a situação de outros é muito pior. De facto um dos maioires obstáculos para nos permitirmos chorar as nossas perdas actuais é a vergonha que muitas vezes se instala.

Eu, por exemplo, quando começo a sentir saudades dos velhos tempos, sinto-me muitas vezes mal com a minha própria ingratidão, sabendo que há outras pessoas a enfrentar problemas bem mais angustiantes, tais como perder um negócio, um emprego, ou o parceiro de uma vida. E, na verdade, a comparação do sofrimento nunca é útil e pode levar-nos a descartar as nossas próprias experiências. A investigadora da vulnerabilidade e vergonha Brené Brown expôs isto muito bem quando disse:

“(…) sem pensar, começamos a classificar o nosso sofrimento e a usá-lo para nos negarmos ou nos darmos permissão para sentir. (…) Mas não é assim que funciona a emoção ou o afecto. As emoções não desaparecem porque lhes enviamos uma mensagem de que estes sentimentos são inapropriados e não atingem níveis suficientemente elevados no quadro do sofrimento. (…) Todo o mito do sofrimento comparativo é a crença de que a empatia é finita. (…) É falso. Quando praticamos a empatia connosco próprios e com os outros, criamos mais empatia.”

É importante validarmos os nossos sentimentos de pesar

É importante termos presente que os nossos sentimentos são válidos. Podem ser diferentes dos outros, mas não há uma forma certa ou errada de sentir o que sentimos. Precisamos de nos darmos permissão para sentirmos tristeza e desgosto, até para que os nossos filhos sintam que o seu próprio sofirmento também é validado. Alguns de nós podem nem sequer ter consciencia de que o que têm estado a sentir é luto.

O luto pode afectar todas as áreas do nosso ser, não apenas os aspectos emocionais, mas também os físicos e espirituais. A primeira coisa que devemos fazer é reconhecer que as nossas perdas são reais e nos afectam. Depois precisamos de reconhecer os nossos sentimentos e falar sobre eles com alguém em quem possamos confiar e nos sintamos confortáveis. Por exemplo, um amigo ou membro da família que se encontre em circunstâncias semelhantes provavelmente compreenderá e relacionar-se-á com o que está a vivenciar.

Kessler escreve: “O luto de cada pessoa é tão único como a sua impressão digital. Mas o que todos têm em comum é que, independentemente da forma como sentem a dor, partilham a necessidade de que a sua dor seja testemunhada”.

O não reconhecimento do stress adicional associado à pandemia apresenta o risco de se culpar por algo que está fora do seu controlo. Quando o luto não é reconhecido, pode acabar por se acumular e sobrecarregar-nos num momento posterior. Não negue ou minimize o que está a experienciar, a fim de evitar o impacto de uma resposta de luto ainda mais intensa no futuro.

Se for caso disso, procure ajuda especializada.

 

Que aprendizagens nos trouxe a pandemia?

4 meses atrás · ·0 Comentários

Que aprendizagens nos trouxe a pandemia?

A COVID-19 impôs-nos  muitas mudanças e touxe-nos aprendizagens inesperadas. Ao longo dos últimos meses  temos vivido num estado de medo de um novo inimigo. Mas, afinal que aprendizagens é que a pandemia nos trouxe? O estilo de vida a que estávamos habituados e a forma como nos relacionamos foram alteradas, de maneira abrupta. Ensinou-nos a priorizar a vida, de modo a podermos lidar com esta ameaça, invisível a olho nu, que é representada como um símbolo de perigo na nossa mente.

A humanidade tem estado (e continua a estar) ameaçada por um virus que ataca, sorrateira e indiscriminadamente, afectando a forma como damos sentido, física e emocionalmente, ao mundo. Mas, conforme referi num artigo anterior, não baixámos os braços!

O que estamos realmente a aprender com esta pandemia?

Creio que todos nós aprendemos lições muito significativas com esta pandemia, para nós e para as gerações vindouras. Consideremos, por exemplo, a forma como os espaços comerciais se reinventaram rapidamente. Os comerciantes adaptaram-se de forma célere para acolher com segurança os nossos novos eus potencialmente contagiosos. Determinara a forma como fazemos compras em termos de quantidade, frequência e com quem. Graças aos sinais visíveis e à vigilância cortês, fizeram com que nos tornássemos conscientes de nós e dos outros, e de como cada um de nós ocupa o espaço agora, em comparação com a forma como o fazíamos antes.

Mas, o que aprendemos realmente com esta experiência? Como percebemos e lidámos com a situação? Vale a pena reflectir sobre dois aspectos: a resiliência que desenvolvemos, que é a capacidade de adaptação a situações adversas; e a conscientização de humanidade comum, somos todos partes do mesmo todo.

Viver com o vírus ensinou-nos a valorizar o trabalho muitas vezes invisível, porém essencial, daqueles que estão a trabalhar por nós e para nós  para que nada nos falte; a adquirir novas aptidões, forçando-nos a encontrar novas formas de trabalhar, de fazer compras, de aprender, de socializar, de rezar, de brincar e até mesmo de nos comportarmos e interagirmos uns com os outros.

Também nos ensinou que as crianças podem e devem ser incluidas nas tarefas domésticas, o que lhes traz um enorme senso de responsabilidade pelas suas acções; que muitas actividades, incluindo físicas, podem ser feitas em casa por via de meios digitais; ou que podemos reduzir as nossas deslocações, diminuindo assim o trânsito e a poluição.

Como estamos a lidar com a COVID-19 no pós-confinamento

Apesar de muitas mudanças e aprendizagens que podemos genuinamente considerar positivas, a nossa realidade mudou irremediavelmente. Segundo o Forum Nacional de Psicologia “os efeitos  da pandemia covid-19 serão múltiplos e profundos e as consequências para a saúde psicológica dos cidadãos ocuparão um lugar de destaque”. A verdade é que estamos agora a aprender a adaptar-nos ao distanciamento social em todas as áreas da vida,  perpetuando um medo persistente que ameaça sobreviver ao próprio vírus.

Quanto tempo vamos demorar a recuperar do distanciamento social em que temos vivido? Esta necessidade de salvar vidas que tem marcado as nossas mentes e os nossos corpos.

Será a nova normalidade vivermos num mundo onde os rostos estão escondidos da vista, os sentidos embotados por luvas de borracha e a possibilidade de contacto humano protegido por um vidro protector? Como é que os nossos corpos físicos irão lidar com isso? E como é que o nosso novo e frágil mundo – e mais higienizado – irá lidar com todos estes corpos?

Como vamos ultrapassar o medo de qualquer um de nós poder constituir uma ameaça?

Como vamos então lidar com a presença física de terceiros, quando formos encorajados a reconquistar os nossos espaços nos transportes públicos, nos escritórios em open space, em fábricas, estaleiros, aeroportos, salas de aula, salas de concertos e centros comerciais? À medida que a distância de segurança de dois metros se vai encutando lentamente, como vamos ultrapassar esta nova encarnação física do medo – o facto de qualquer um de nós, incluindo nós próprios, poder constituir uma ameaça?

A forma como  ocupamos (os nossos corpos) o espaço influencia directamente a forma como agimos e pensamos.

Apesar de tipicamente darmos primazia à mente sobre o corpo, é evidente que as lições aprendidas com  e através do corpo são duradouras. Basta pensarmos, por exemplo, no impacto social e psicológico duradouro da segregação dos espaços com base na raça ou na classe social.

A forma como utilizamos o espaço afecta-nos emocional, social, cultural e economicamente

A forma como utilizamos o espaço – a nossa proximidade, a nossa distância e as fronteiras que criamos entre nós – afecta-nos emocional, social, cultural e economicamente. Agora estamos a testemunhar a forma como os nossos corpos se ajustam e aprendem a lidar com um novo mundo moldado por uma pandemia.

O medo dos corpos dos outros não é inédito e a humanidade tem uma longa e lamentável história de separatismo e segregação ou de apontar alguns como mais assustadores ou perigosos do que outros, quer se trate de muçulmanos após o 11 de Setembro, de refugiados no processo de elaboração do referendo do Brexit ou da sistemática e contínua descriminação dos negros ou dos homosexuais.

O medo da COVID-19 pode tornar-se intrinsecamente visceral, firmemente enraizado na nossa memória física, tornando o nosso medo recém-adquirido uns dos outros ainda mais difícil de eliminar. Todavia, a natureza universal da COVID-19 torna os corpos praticamente indistinguíveis uns dos outros, tornando-nos a todos simultaneamente vulneráveis e perigosos. Este facto pode ser encorajador!

Renegociar o espaço pessoal será a nova normalidade?

A COVID-19 pode ser encarada como um grande nivelador, encorajando-nos a reconhecer a nossa própria vulnerabilidade e a vulnerabilidade dos outros, para que possamos combater o vírus como uma frente unida e igualitária. Já se perderam imensas vidas e continuam a perder-se, diariamente, em todo o mundo. Cada um de nós só estará a salvo quando todos estiverem a salvo. A nova forma de vida, pós-COVID-19, pode tornar-nos mais responsáveis e mais conscientes do impacto que as nossas acções (e os nossos corpos) têm sobre o ambiente, sobre a economia e uns sobre os outros, social, física e emocionalmente.

Quando começarmos realmente a libertar-nos dos nossos casulos de confinamento, a noção de um regresso à “normalidade” será simultaneamente uma impossibilidade e uma oportunidade perdida. Todos nós saímos perdedores e ganhadores desta pandemia. Mas as perdas são mais significativas para uns do que para outros.

Quem são os heróis deste marco na história da humanidade?

Quem entretanto perdeu os seus entes queridos, enfrenta agora um processo de luto marcado pela impossibilidade do último adeus. Algumas feridas que se criaram ao longo destes meses irão demorar a cicatrizar. Mas, sobreviver a uma pandemia global, tanto física como emocionalmente, é a cicatriz que devemos usar com orgulho, revelando a ferida que tanto nos curou como nos moldou.

Foram e continuam a ser inúmeros os que colocaram o bem-estar dos outros à frente do seu próprio bem-estar e até da sua saúde, física e mental. São muitos os heróis e heroínas que ficarão ligados a este marco na história da humanidade. Esta tem sido uma oportunidade única para todos, sem excepção, nos tornarmos melhores seres humanos. Mas acredito que os verdadeiros ícones serão aqueles que conseguirem ressignificar as suas experiências dolorosas e crescer a partir delas, dando um novo sentido à sua vida!

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