Blog - Ana Paula Vieira

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O que é o Trabalho Interior?

1 dia atrás · · 0 Comentários

O que é o Trabalho Interior?

O trabalho interior é a verdadeira essência da espiritualidade, é o que nos conduz ao verdadeiro despertar.

Quando fazemos trabalho interior, estamos a acender a luz da consciência na nossa paisagem interior. A parte de nós que é composta pelas várias camadas da nossa mente: o consciente, o subconsciente e o inconsciente.

O que poderia ser melhor do que curar, evoluir, tornar-se mais feliz, sentir-se livre, assumir o seu poder pessoal, viver em harmonia consigo e com os outros, e emanar energias de mudança para todo o ambiente envolvente? Todavia, é aqui que reside um dos temores mais secretos do se humano.

Então, se o trabalho interior é um caminho tão digno, por que nos sentimos secretamente aterrorizados em relação a ele?

A verdadeira cura emocional,  a transformação e o despertar só são possíveis com trabalho interior.

O trabalho interior é a prática psicológica e espiritual de mergulhar profundamente no nosso eu interior com o propósito de auto-exploração, auto-compreensão, cura e transformação. Contudo a maioria de nós oferece resistência, inconscientemente, porque que penetrar no nosso íntimo aterroriza-nos.

O nosso eu interior é o fiel depositário dos nossos sentimentos, memórias, preconceitos, pensamentos, crenças, feridas psicológicas, sombras e outras situações mentais/emocionais que influenciam a nossa capacidade de transformação e de nos sentirmos Inteiros a um nível nuclear. Ao fazermos trabalho interior, temos acesso ao âmago do nosso ser e concedemo-nos a oportinidade de ultrapassar medos, bloqueios, depressões, solidão e sentimentos de desconexão que tendem a atormentar a maioria dos seres humanos.

Preferimos morrer na ignorância do que admitir que estamos errados

A realidade é que é mais fácil apontar o dedo a outras pessoas e encontrar um culpado fora de nós, do que procurar dentro de nós mesmos a fonte do nosso próprio sofrimento. Preferimos adoptar uma mentalidade de vítima do que ousarmos olhar-nos ao espelho com honestidade. Em alguns casos, preferimos morrer na ignorância obstinada do que admitir que estamos errados, enganados, ou que somos culpados, responsáveis pelo nosso sofrimento e pela dor dos outros.

Os nossos egos são construções frágeis, sedentas de controlo e poder. O trabalho interior enfraquece o Ego porque, na sua própria essência, coloca a verdade e o desejo de Amor acima de tudo. O trabalho interior é um processo de desconstrução e de renascimento. É um processo incessante porque, mesmo depois de atingirmos um nível de consciência elevado, se acreditarmos que o trabalho está concluido, é quando a sombra volta a reaparecer. É quando ocorre a estagnação que o narcisismo espiritual prospera.

Quando nos entregamos intencionalmente ao trabalho interior, estamos em busca de abraçar a dualidade da nossa existência, de percorrer os nossos recantos mais escondidos, dispostos a morrer e a renascer uma e outra vez. Procuramos entrar em contacto com tudo aquilo em que nos podemos tornar, enfrentar as nossas sombras mais tenebrosas, encarnar a nossa luz mais divina, experienciar a Unicidade.

O trabalho interior é escolher o caminho menos percorrido

É muito mais fácil viver uma existência de seguidores e percorrer o caminho que os outros abriram antes de nós do que escolher o caminho menos percorrido. É muito mais fácil adoptar o papel de vítima, apontar o dedo aos outros e negligenciar a auto-responsabilidade.

Percorrer o caminho menos percorrido é muito mais difícil, desconfortável, e muito mais exigente. E a maioria das pessoas NÃO está pronta ou disposta a fazer essa escolha.

A auto-comiseração e a complacência proporcionam um certo conforto, mas é precisamente esse conforto que ironicamente leva ao vazio, à perda da alma e à completa privação de qualquer coisa verdadeiramente real, verdadeiramente digna de ser vivida.

Quando for capaz de seguir a sua intuição, o caminho torna-se mais bem definido.

Há várias maneiras de tornar o caminho do trabalho interior mais suportável. A ligação com a sua fonte de poder mais profunda, o seu espírito livre interior e a sua essência pura, é a primeira. Quando for capaz de seguir o seu instinto e intuição, de ver claramente, de fazer escolhas sábias, e de se proteger daqueles que procuram prender-se a si, o caminho torna-se mais bem definido.

Lembre-se que por muito doloroso que seja, “a fénix renasce das cinzas”,  ou seja, por muito mal que se sinta, a dor é um catalisador para uma profunda transformação espiritual. Aliás, atrevo-me a dizer que sem dor não há apelo ao trabalho interior.

Por último, quero que compreenda que, pela sua natureza, o ego será sempre contra o trabalho interior. É a nossa alma que nos conduz ao trabalho interior, por isso seria benéfico para si aprender a distinguir entre a voz do medo (o ego) e a voz da sua intuição (a alma).

Conforme escreveu Carl Jung:

“As pessoas farão tudo, por mais absurdo que seja, para evitar enfrentar as suas próprias almas.”

 

P.S. Se gostou deste artigo, deixe o seu comentário abaixo. Eu sinto-me sempre inspirada cada vez que alguém deixa um comentário.

O que vai emergir da pandemia

1 mês atrás · · 0 Comentários

O que vai emergir da pandemia

Um simples virus foi quanto bastou para interromper uma normalidade viciada. Uma paragem forçada que veio expor as fragilidades de pessoas, famílias, organizações e das sociedades actuais, em geral. A inaptidão para lidar com o inesperado tornou-se visível em alguns países! Também se tornou claro que há uma dificuldade generalizada para lidar com o stress, a ansiedade e a solidão e que não existem redes de apoio suficientes para acudir a essas situações. E, uma vez mais, algumas redes de trabalho voluntário foram chamadas a dar 500%, porque os meios para lidar com estas questões são claramente insuficientes. Então, o que vai emergir da pandemia?

O isolamento social, tão necessário para nossa autopreservação, para protecção dos nossos entes queridos, e por respeito a quem está na linha da frente, para que nada nos falte (conforme referi no último artigo, “Não podemos baixar os braços“), nem sempre é encarado da forma mais positiva.

Quando uma crise se instala podemos entrar rapidamente em colapso

Quando uma crise se instala, se não houver estruturas sólidas ou planos de contingência, podemos rapidamente entrar em colapso. Mas podemos sentir-nos novamente gratos pelo voluntarismo de muitas pessoas que, apesar das suas dificuldades pessoais (porventura, financeiras porque a nossa economia é sustentada por prestadores de serviços e, portanto, sem um salário fixo), foram as primeiras a reagir positivamente e a disponibilizar, gratuitamente, todo o tipo de serviços e apoios nas redes sociais. Desde sessões terapêuticas, meditação, exercício físico, actividades lúdicas para as crianças, formação específica nas mais variadas àreas de conhecimento, etc., têm sido inscansáveis.

Certamente já todos viram as inúmeras mensagens que circulam nas redes sociais e nos meios de comunicação sobre como é fantástico ver o mundo solidário contra a Covid-19. Mas, o que vai surgir quando terminar o isolamento social? Se por um lado, isto nos dá esperança de que seja possível fazer mudanças profundas e nos inspira e motiva porque nos sentimos unidos num propósito, numa missão e numa visão, por outro há uma certa realidade escondida na qual, em geral, não pensamos. Esquecemos que há outras realidades que não estão a ser mostradas nas redes sociais porque estamos em modo de confinamento. Refiro-me aos sem-abrigo, às vítimas de violência doméstica, à fome escondida, que deixaram de estar visíveis graças à pandemia.

Por momentos acreditei que a interdependência humana seria reconhecida e honrada. Como dizia Einstein, “Nenhum dos problemas do mundo é tecnicamente difícil de resolver; eles têm origem no desacordo humano”.

O que está realmente a motivar os “decisores” políticos e económicos é uma história diferente

No entanto, quando olhamos para o que está realmente a motivar os “decisores” políticos e económicos nos dias de hoje, emerge uma história diferente.

Em vez de serem impulsionados por um desejo de bem comum, a partir de um lugar de motivação interna, de doação natural, de coração aberto, estamos a ver o ressurgimento acelerado de tendências pré-existentes, políticas, económicas e sociais… Basta olharmos para a polémica que se gerou em torno da celebração do 25 de Abril, ou prestarmos atenção às notícias acerca do aproveitamente que algumas organizações estão execer em vários quadrantes da economia. Mais uma vez, as futilidades se sobrepõem ao essencial.

Afinal, o que está a emergir da consciência colectiva? Queremos continuar a perpetuar sistemas de dominação e controlo, que obscurecem e tornam redutoras as questões mais profundas da vida humana, que precisamos de analisar e transformar?

O que vai emergir quando for possível voltar à normalidade?

Quando for possível voltar às nossas rotinas teremos tido a oportunidade para nos perguntarmos se queremos mesmo voltar a essa normalidade. O que vai emergir desta situação? A minha esperança mais profunda é que, durante este tempo, tenhamos visto o que queremos mesmo levar para o futuro. Será que os estilos de vida que tínhamos são dignos de continuidade, ou teremos aprendido algo muito mais significativo com esta experiência? Os nossos valores mantêm-se inalterados ou sentimos necessidade de fazer uma reordenação na sua escala? O que ganhámos? E o que perdemos? Teremos percebido aquilo em que vale a pena continuar a investir tempo, recursos e energia? Que legado queremos deixar às gerações vindouras? Que tipo de pessoas, de organizações, de sociedade, de país queremos ser?

O sentido da vida não pode continuar a ser adiado. Esta pode ter sido uma das derradeiras oportunidades que nos foi dada, enquante espécie, para construirmos novas sociedades, mais holísticas para que possamos retomar o caminho de reencontro com o essencial, com o humanismo perdido nas teias do consumismo.

Temos um manancial de oportunidades de contribuir para uma nova normalidade

Agora, mais do que nunca, precisamos de nos examinarmos a nós próprios, de nos questionarmos se queremos continuar a mover-nos pelo medo ou em piloto automático. Queremos continuar a manter padrões de comportamento de ataque ou fuga, ou pelo contrário, estamos dispostos a entrar em contacto com a nossa natureza compassiva e generosa e a trabalhar com ponderação para criarmos sistemas de vida conectados e humanizadores, que sirvam verdadeiramente a vida de todos os seres que habitam no nosso planeta?  Como sempre, temos um manancial de oportunidades para contribuir para uma nova normalidade através do nosso próximo passo, da nossa próxima acção, da nossa próxima escolha, da nossa atitude, da nossa relação com os nossos medos e da nossa relação com os outros e com o mundo.

Creio que não podemos continuar a viver as nossas vidas, e a nos relacionarmos, connosco ou com os outros, a partir de uma posição de vítima ou de agressor/opressor.

Precisamos de desenvolver o hábito de nos relacionarmos connosco próprios e com os outros a partir da vulnerabilidade, da empatia, da compaixão, da humanidade partilhada e da interdependência. Acredito que o caminho para vivermos vidas mais plenas e gratificantes, para sermos realmente felizes será por aí.

Gostaria muito de saber qual é a sua opinião.

O que ressoou consigo?

Que questões adicionais lhe surgiram?

Ou se vê isto de forma diferente?

Que mais poderia acrescentar à discussão?

Não podemos baixar os braços!

2 meses atrás · · 0 Comentários

Não podemos baixar os braços!

Vivemos momentos conturbados à escala mundial e, dependendo da situação pessoal de cada um, podemos ter desafios menores ou maiores para enfrentar. Todavia, não podemos baixar os braços!

DESISTIR não é opção!

Não quero desvalorizar o que se está a passar, tanto em Portugal como no resto do mundo, quero apenas relembrar que, DESISTIR não é opção!

Podemos estar de pés e mãos atadas relativamente a alguns acontecimentos, mas a forma como lidamos com isso importa!

Não são as nossas circunstâncias e os acontecimentos que nos definem, mas a maneira como lidamos com eles. Mesmo no meio do caos podemos encontrar formas de mantermos alguma normalidade, e saírmos mais forte e mais sábios por causa disso.

Fazer ajustamentos para lidar com as adversidades

Estou encerrada em casa desde o dia 14 de Março, por opção própria e por respeito às recomendações dos órgãos competentes, mas também por uma questão de auto-preservação. Apesar de habitualmente já trabalhar 90% do tempo em casa, confesso que não está a ser nada fácil. Mas reconheço que em situações especiais, precisamos de fazer os ajustamentos necessários para lidar com as adversidades.

Estamos a ser colocados à prova, em várias vertentes das nossas vidas. Acredito que se avizinham muitas mais mudanças e que, para muita gente, elas serão radicais. Resta saber que atitude escolhemos ter face a ela. De flexibilidade ou de rigidez?

Se virmos bem, a mudança é uma constante na nossa vida. No entanto, tipicamente somos avessos à mudança.

Eu costumava dizer: “só as árvores não mudam”. Mas, na verdade, actualmente já se transplantam árvores centenárias sem danificar as suas raízes.

Dá trabalho? Dá.

Demora tempo? Depende… do tipo de solo, da zona envolvente, da profundidade das raízes, enfim…  uma série de factores. Mas se houver vontade, a mudança acontece e, geralmente é para melhor.

Pessoas, organizações e empresas flexibilizam-se

Face ao caos, pessoas, organizações e empresas  flexibilizam-se para encontrar soluções que sejam benéficas para todos. Derrubam crenças, culturas organizacionais e padrões de operacionalidade rígidos para se manterem em funcionamento. Isso enche-me o coração de esperança.

O meu coração expande-se porque vejo resiliência. Vejo mentalidades de crescimento. Vejo pessoas que não cruzam os braços. Que agem apesar do medo, ou até, por causa do medo.

Há momentos que pode parecer ser mais fácil desistir

Há muitos momentos na nossa vida, quando surgem obstáculos no nosso caminho, que nos pode parecer ser mais fácil baixar os braços e desistir do que mobilizar recursos para continuarmos a lutar. Todavia DESISTIR não é uma opção.

Existem dificuldades  na vida de toda a gente e devem ser encaradas como oportunidades de aprendizagem. O que leva alguém a alcançar o sucesso é a procura activa de soluções estratégicas para enfrentar e superar as adversidades. O desenvolvimento de uma atitude de resiliência permite-nos ultrapassar obstáculos de forma positiva e percepcionar as dificuldades como possíveis de superar.

A resiliência procura alterar padrões de comportamento

É frequente confundir-se resiliência com resistência, mas elas são coisas muito distintas. A resiliência quando exercida em situações adversas procura alterar os nossos padrões de comportamento e isso gera mudanças. Se essas mudanças não forem percebidas como eficazes, acabam por prejudicar a acção da resiliência, e não perduram ao longo do tempo. São as chamadas mudanças momentâneas, muito distintas das duradouras. A resitência é o poder de encaixe, a capacidade de reprimir o que se está a sentir, ou fazer de conta que nada aconteceu. É uma espécie de estado de negação.

Ser resiliente é acima de tudo ter consciência do que nos acontece, e ter agilidade emocional para enfrentar e integrar esse acontecimento na nossa história de vida e perseverar. É mais do que pensamento positivo, é uma atitude de optimismo face aos desaires da vida. A capacidade de escolher olhar para o que ainda é possível fazer versus o sentimento de conformismo ou de derrota.  Todavia, poucas pessoas são verdadeiramente resilientes.

Há pessoas rendidas à derrota antes de entrarem na arena

Enquanto vejo pessoas e organizações resilientes, que procuram as oportunidades de crescimento, face às adversidades. Também vejo muitas mais pessoas rendidas à derrota, ainda antes de entrarem na arena.

É tão comum ouvir-se coisas como: “ah já não tenho idade para isso. Ou não posso me queixar, há quem esteja muito pior do que eu. Ou então, as coisas são como são. Não há nada a fazer.”

Isto parte-me o coração!

Fico destroçada quando vejo as pessoas DESISTIREM!

Porquê? Porque estas são respostas maladaptativas ao medo.

Desistem dos seus sonhos, desistem dos seus objectivos, desistem de si mesmas, desistem de ser felizes…

Depois sentem-se vazias, desconectadas interiormente e exteriormente, porque não se sentem amadas nem compreendidas…

E isso deixa-me mesmo triste!

Porque não compreendo porque razão alguém desiste de ser FELIZ!

Curar a dor Emocional – Como se reerguer quando a vida nos derruba?!

3 meses atrás · · 0 Comentários

Curar a dor Emocional – Como se reerguer quando a vida nos derruba?!

A vida reserva-nos muitas surpresas, umas boas outras nem por isso. Então, como se reerguer quando a vida nos derruba? Quando a vida nos deita abaixo, quer o previssemos ou não, a sensação é sempre a mesma: ficamos sem chão. Não sabemos como curar a dor emocional.  Questionamo-nos: “Porquê a mim?” ou “Porque é que isto aconteceu?” ou ainda “Que mal fiz eu a Deus para merecer isto?” – como se Deus fosse um ente vingativo que nos castiga com crueldade e impiedade, enquanto agonizamos na nossa vulnerabilidade. Curar a dor emocional é difícil e, muitas vezes nem sabemos como nos podemos reerguer.

Sabemos que o sofrimento faz parte da vida. A experiência humana envolve a probabilidade de termos de lidar com situações dolorosas como uma doença, um desgosto, a mágoa, a morte, o abandono. Todavia, embora todos possamos experienciar vivências semelhantes, toda a dor é pessoal e nenhuma dor é igual.

Palavras de consolo

Independentemente do número de vezes que passemos por experiências dolorosas, por mais que as pessoas bem-intencionadas nos digam: “Nós percebemos”, a verdade é que não percebem. Com efeito, até podemos ficar magoados com essas palavras de “consolo”. Os conselhos ou as frases feitas soam sempre a falso, ou podem mesmo parecer insultuosas, quando alguém está em profundamente sofrimento. Os clichés usuais que se dizem após uma perda,  muitas vezes, são mais nocivos do que reconfortantes.

Enquanto Caoch Emocional e Conselheira de Luto, tenho apoiado muitas pessoas em processo de cura emocional, algumas profundamente magoadas. E, embora eu já tenha vivenciado a minha “dose” generosa de perdas significativas e sofrimento emocional, o que tenho constatado é que, quando a vida nos derruba demoramos a nos reerguer.

A dor emocional fere profundamente a nossa alma

A recuperação emocional requer criar espaço para que a dor possa ser expressada, fazer o luto. No e-book “Curar, Superar, Viver” falo em maior detalhe sobre isto.É esse espaço seguro que facilito às pessoas que apoio. Quando clamam em pranto: “Porque é que isto me aconteceu?”, procuro fazê-las perceber e sentir que estou ali para elas, que reconheço a sua dor. Para que a cura ocorra é necessário validar que a dor é legítima, natural e é normal que a pessoa se sinta daquela forma. A dor emocional fere profundamente a nossa alma e é devastadora quando predemos alguém que amamos. Não há palavras que consolem ou confortem a dor devastadora da perda. Tudo o que conforta é o apoio incondicional a quem está a experienciar esse sofrimento.

A História da Fernanda*

Quando eu conheci a Fernanda, ela tinha acabado de sofrer uma das piores perdas que podemos sofrer: a morte da sua bebé de 9 meses. A bebé morrera durante a sesta, no infantário, vítima do sindrome de morte súbita. Durante as primeiras sessões individuais, ela sentava-se em frente a mim, altiva e estóica, como se não fosse nada com ela. Quando lhe perguntava como estava a lidar com a situação, respondia apenas: “As lágrimas não vão trazer a minha filha de volta”. Entretanto, ela retomara ao trabalho de recepcionista numa clínica, evitando encarar o seu sofrimento, e onde alimentava o ressentimento em relação às colegas que lhe mostravam fotos e filmes dos seus filhos pequenos.

Quando, numa sessão, lhe perguntei como estavam a lidar com a perda, o marido e a filha mais velha, ela ficou sem palavras. Os seus olhos arregalaram-se e enquanto lutava para engolir a sua dor e sufocar as suas lágrimas, começou a preparar-se para se levantar. Então, olhei-a nos olhos e disse-lhe carinhosamente: “Eu também perdi um filho.”

No momento em que partilhei com ela que eu também perdera o meu filho primogénito e que, tal como ela, eu optara por ignorar o meu sofrimento. Quando lhe expliquei o quato isso dificultou o meu processo de luto, além de ter causdo sofrimento desnecessário ao meu marido e à minha filha, as suas lágrimas começaram a caír em bica.

De repente, a Fernanda deixou-se afundar novamente na cadeira e deixou as lágrimas sair. Caíu num longo e soluçante pranto, enquanto abria espaço à sua dor. Nas semanas que se seguiram, ela chegava esperaçada às sessões. Lentamente, com a minha ajuda e apoio, ela percebeu que a melhor maneira de honrar a memória da sua filha era encontrar uma nova maneira de abraçar a vida.

O que fazer depois de ser magoada emocionalmente

Eu faço parte integrante daquele gupo de pessoas que têm o coração partido. Após múltiplas perdas profundamente significativas, umas mais devastadoras do que outras, desde o meu filho primogénito, os meus pais, duas perdas gestacionais, uma irmã e vários entes queridos, poder-se-ia dizer que me tornei perita no sofrimento. Todavia, o que aprendi após mais de 5 anos a apoiar pessoas no seu processo de cura emocional e com as minhas próprias vivências, é que a quer seja em processos de luto ou perda, trauma ou burnout (além das minhas perdas pessoais), o que eu aprendi é que, quando somos violentamente derrubados pela vida, a recuperação é lenta, sofrida e demorada. Não nos conseguimos voltar a  reerguer facilmente. Até podemos ter o impulso de nos reerguermos e de recomeçarmos a andar, mas isso só agravará a situação.

Como apoiar o seu processo de cura emocional

Tal como acontece quando tropeçamos e caímos,  se fizermos  uma lesão e a ignorarmos só agravamos a situação. A dor emocional, tal como qualquer dor física, exige igual atenção. Ela precisa de ser reconhecida e acolhida antes de podermos seguir em frente. Já chorei muito sozinha, na rua, no escritório, no carro, no cemitério… outras vezes com amigos e familiares, às vezes com clientes. E, como a maioria das pessoas, tentei esquivar-me à tristeza, mas, como acontece com todos, ela acabou por me encontrar. A dor emocional é uma das certezas cruéis da vida, se nos permitirmos amar o sufuciente.

Foi Sigmund Freud quem primeiro trouxe à tona o conceito de trabalho de luto e, embora as tarefas específicas que ele delineou tenham sido reconsideradas ao longo dos anos desde a publicação do seu livro “Luto e Melancolia” em 1917, a ideia de que o luto é proposital continua no século XXI. Há muita literatura que refere fases do luto, etapas do luto e até tarefas do luto.

As Quatro Tarefas do Luto

No final da década de 1990, James Worden, professor de psicologia, optou por ver o trabalho de luto como orientado por tarefas. No seu artigo de 1996, “Tarefas e Mediadores do Luto – Um Guia para o Profissional de Saúde Mental”, ele delineou as quatro tarefas seguintes:

1. Aceitar a realidade da perda.
2. Processar a dor do luto
3. A adaptação ao mundo sem o falecido
4. Encontrar uma ligação duradoura com a pessoa que se perdeu enquanto se empreende uma nova vida.

Segundo Worden, o trabalho que se desenvolve durante o processo de luto, irá focar a nossa atenção no alcance de cada um desses objectivos. Isso irá ocorrer sem nenhuma ordem lógica, porque, afinal, cada um de nós é diferente e o caminho que percorremos na jornada de luto não é um caminho linear. Na verdade, aqueles de entre nós que estão de luto flutuam naturalmente entre a tristeza e a normalidade. É um processo de adaptação, no qual nós nos movimentamos entre as actividades orientadas para a perda ( o processamento da dor do luto) e as actividades orientadas para a restauração (a adaptação à vida sem os nossos entes queridos, esforçando-se para criar conexões duradouras com quem perdemos).

Não há receitas mágicas para a cura emocional

Embora sem se referir às tarefas do luto, o famoso escritor francês Honoré de Balzac captou o valor do trabalho de luto quando disse: “Toda a felicidade depende da coragem e do trabalho”. Com efeito, não há receitas mágicas para elaborar um processo de luto. Mas, com efeito, é realmente necessário coragem e trabalho duro para se adaptar com sucesso à perda de um ente querido ou de algo significativo na nossa vida, todavia, é possível alcançá-lo. Com apoio, compreensão, compaixão e coragem, é possível voltar a sorrir e viver uma vida com significado, como a Fernanda.

Alguns anos depois de terminar a sua terapia de luto, a Fernanda telefonou-me para me contar as novidades acerca da sua vida. Ela deixara o emprego na clínica, formara-se em terapia da fala, e estava a trabalhar numa escola para crianças com necessidades especiais. Quando lhe perguntei como se sentia, ela respondeu simplesmente: “Eu ainda sinto muita falta dela. Mas agora tenho tantos filhos para cuidar… Gosto de imaginar que a minha filha, onde quer que esteja, está muito orgulhosa da mãe que tem”.

A dor da perda nunca é igual, percebi isso com as várias pesoas que tenho apoiado e com as perdas pessoais profundas que sofri. Mas, para ser elaborada ela precisa de ser sentida. Precisamos de atravessar a porta da dor, honrá-la, não fugir dela.

*(nome fictício para proteger a privacidade da cliente)

P.S. Se gostou deste artigo, e se gostaria de ler mais artigos sobre este tema, deixe um comentário ou envie-me um e-mail. Talvez tenha interesse num outro que escrevi sobre o luto em crianças e  adolescentes. Também pode encontrar alguns recursos úteis para apoiar no seu processo de cura neste e-book

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