Arquivo de Luto e Perdas - Ana Paula Vieira

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O que é ser emocionalmente inteligente?

2 semanas atrás · ·0 Comentários

O que é ser emocionalmente inteligente?

Ser emocionalmente inteligente é muito mais do que possuir um conjunto de abordagens e estratégias que servem para identificar e gerir melhor as nossas próprias emoções. Trata-se, acima de tudo, de um poder pessoal com o qual podemos adquirir de uma verdadeira consciência emocional a partir da qual podemos construir relacionamentos mais fortes e respeitosos, além de ser essencial para nos sentimos mais seguros, bem-sucedidos e felizes.

Ser emocionalmente inteligente consiste na capacidade de percepção, atenção, expressão e regulação das emoções, e compreensão e regulação das emoções,  próprias e de outros.

O que é inteligência emocional?

Certamente a maioria de nós já ouviu falar ou leu sobre Inteligência Emocional ou até já fez algum curso relacionado com o tema. Ela está presente em muitos contextos da nossa vida pessoal e social diária. Esta inteligência revela-se nas interacções com os outros, em família, com amigos, na escola ou universidade, no trabalho, ou qualquer contexto de interacção social.

As primeiras definições de inteligência referiam-se às capacidades cognitivas e intelectuais, deixando de lado as competências emocionais. O psicólogo e investigador Howard Gardner, num esforço de analisar e descrever melhor o que é a inteligência, desenvolveu, durante os anos da década de 1980, a Teoria das Inteligências Múltiplas. Numa fase inicial, Gardner (1983) identificou sete tipos de inteligência: musical, linguística, lógico-matemática, visuo-espacial, corporal-cinestésica, intrapessoal e interpessoal.  Isto levou a uma classificação da inteligência em diferentes tipos, como a lógico-matemática, linguística e emocional.

O debate em torno das inteligências pessoais de Gardner, conduziu à definição básica de Inteligência Emocional (IE). O psicólogo Salovey expandiu as aptidões pessoais a 5 domínios: a capacidade de conhecer as próprias emoções; a capacidade de lidar com essas emoções e sentimentos; a automotivação; a capacidade de reconhecer emoções nos outros; e de lidar com as emoções dos outros. Para Salovey estas eram as habilidades necessárias para se ser emocionalmente inteligente.

Uma definição de Inteligência Emocional

Apesar das pesquisas terem sido desenvolvidas por diversos investigadores, usualmente este tema é, quase que instantaneamente, relacionado com o nome do psicólogo Daniel Goleman. Para ele, Inteligência Emocional significa a capacidade de se motivar, perseverar diante das frustrações, controlar impulsos e regular o humor, e também de ser capaz de sentir empatia e confiar nos outros.

Daniel Goleman define a Inteligência Emocional como “a capacidade de reconhecer os nossos sentimentos e os dos outros, de nos motivarmos e de gerirmos bem as emoções em nós e nas nossas relações.” (1)

O termo Inteligência Emocional foi cunhado por Michael Beldoch em 1964, que o utilizou em artigos científicos, muito antes de Goleman publicar o seu famoso livro “Inteligência Emocional” em 1995. Estes artigos falavam da comunicação e da sensibilidade emocional, das suas implicações e da forma como determinam a nossa personalidade e os nossos relacionamentos. Desde então, o tema avançou de forma notável, dando lugar a diferentes abordagens e críticas.

A inteligência emocional é muito mais do que um mero conjunto de abordagens e estratégias que servem para identificar e gerir melhor as próprias emoções. A implicação que esta perspectiva psicológica, social e motivacional teve no nosso dia a dia supera possíveis brechas que possam existir na teoria de Daniel Goleman.

Componentes da Inteligência Emocional

Goleman elencou cinco pilares que se referem à definição anterior, na qual foram identificados vários componentes.

Autoconhecimento emocional

Autoconhecimento emocional refere-se à capacidade de identificar, conhecer e expressar de maneira adequada e confiável os nossos próprios sentimentos e emoções, e também os seus efeitos. O primeiro passo é conhecermo-nos, analisar as nossas emoções e as acções que fazemos como resposta aos estímulos.

Devemos estar conscientes de que a Inteligência Emocional é um processo gradual e que varia de pessoa para pessoa. É essencial conhecermos bem as próprias emoções e sentimentos, e as acções que originam. Só assim poderá ter respostas adequadas, para si e para os outros.

Autocontrolo emocional

Autocontrolo emocional é a capacidade de controlar os próprios impulsos e regular as emoções.

Tenha em mente que todos nós temos momentos stressantes ou em que nos sentimos ansiosos por algum motivo. Aprender a lidar com as emoções e regulá-las, colocá-la-á na direcção certa conforme cada situação, fará toda a diferença entre o equilíbrio e a disfunção. Seja optimista, procure ver sempre o lado positivo das coisas e lembre-se que cada situação tem diversas saídas.

Automotivação

Automotivação é o que nos permite alcançar os nossos próprios objectivos, através da gestão adequada das emoções. Ao saber utilizar adequadamente as suas emoções terá mais facilidade em alcançar os seus objectivos, sem passar por cima de ninguém.

É essencial aprender a responder aos seus estímulos, para depois decidir como quer agir para atingir as suas metas. Por outro lado, temos um processo inconsciente, onde experienciamos os gatilhos emocionais a que reagimos, expressando as emoções de forma instantânea. Isto muitas vezes gera arrependimentos e desvios das nossas metas.

Consciência Social ou Empatia

Empatia é definida como a capacidade de responder adequadamente às necessidades expressas pelos outros, bem como a capacidade de partilhar esses sentimentos.

Aprender a se colocar no lugar do outro, de reconhecer as emoções dos outros e compreender os seus comportamentos, torna-nos mais sensíveis e abertos.

Relações interpessoais

Relações interpessoais neste caso, é a capacidade de nos relacionarmos eficientemente com os outros, fazendo com que se sintam bem e gerando emoções positivas.

Saber se relacionar interpessoalmente é outro ponto chave para o sucesso. Ao perceber e gerir as emoções dos outros será capaz de manter boas relações. Isso irá criar um ambiente positivo à sua volta, melhorando não só a sua qualidade de vida, mas também contagiando aqueles que estão ao seu redor.

Benefícios da Inteligência Emocional

Agora que compreendeu quais são os 5 pilares da Inteligência Emocional, já deve ter extraído alguns benefícios de ter uma IE bem desenvolvida. Todos temos desafios diários, metas e prazos para cumprir, família e filhos com quem lidar, reuniões onde participar e decisões para tomar. Estamos a ser constantemente observados e avaliados e vivemos quase sempre sob pressão. Para lidarmos com as pressões diárias, a chave é aplicar os pilares da Inteligência Emocional, o que lhe trará vários resultados positivos.

Principais benefícios

Veja alguns dos principais benefícios que obterá ao desenvolver melhor a sua Inteligência Emocional:

  •  Diminuirá os seus níveis de ansiedade e de stress;
  •  Evitará discussões e melhorará os seus relacionamentos interpessoais;
  •  Terá mais empatia pelo outro e maior compreensão;
  •  Irá obter mais equilíbrio emocional;
  •  Ganhará maior clareza dos objectivos e acções;
  •  Irá melhorar a sua capacidade de tomar decisão;
  •  Melhorará a sua gestão de tempo e produtividade;
  •  Aumentará o nível de comprometimento com as suas metas;
  •  Terá mais senso de responsabilidade e uma melhor visão do futuro;
  •  Elevará a autoestima e autoconfiança.

Conclusão

Ser emocionalmente inteligente envolve a aquisição de uma verdadeira consciência emocional com a qual podemos construir relacionamentos mais fortes e respeitosos. A IE, além de nos permitir a auto-regulação emocional, é uma chave de poder com a qual nos sentimos mais seguros, bem-sucedidos e felizes.

Uma vez que consigamos nos tornar mais conscientes das emoções, nossas e dos outros, e do papel que desempenham nas nossas acções, podemos usar essa conscientização e reflectir. Reflectir sobre o que aconteceu e sobre o que poderia ter tornado o resultado mais positivo é útil para prevenir dissabores futuros.

Os investigadores concluíram que estas competências emocionais têm enorme influência nas habilidades adaptativas e cognitivas das pessoas. Por isso, lembre-se que ponderar antes de tomar decisões trar-lhe-á diversos benefícios e prevenirá o surgimento de conflitos ou de arrependimento pelos seus actos. E, quando estiver sob pressão, o mais importante é procurar manter a calma. Encontre uma distracção, faça uma actividade prazerosa e canalize a sua ansiedade de forma positiva.

Se gostou do tema e/ou do artigo, por favor deixe o seu comentário ou envie um e-mail. Adoraria saber a sua opinião.

 

Refeências Bibliográficas:

Daniel Goleman, Trabalhar com Inteligência Emocional (Lisboa: Círculo de Leitores e Temas e Debates, 1998, 5ª edição, 2012.

Luto colectivo

3 meses atrás · ·0 Comentários

Luto colectivo

A COVID-19 teve e continua a ter um profundo impacto nas nossas vidas. Não sabemos o que vai emergir desta pandemia, mas sabemos que todos perdemos muito. Perdemos tanto que estamos agora a lidar com um luto colectivo.

Normalmente, quando pensamos no luto,  pensamos na perda (por morte) de um ente querido. No entanto, podemos sentir pesar por qualquer coisa, física ou imaterial, a que estejamos emocionalmente apegados. A questão é nunca nos tínhamos apercebido da quantidade de coisas a que estávamos apegados. Tomámos tantas coisas como adquiridas e, de um dia para o outro, a nossa realidade mudou.

Cada um de nós está a enfrentar perdas significativas

Cada um de nós está a enfrentar o luto por perdas significativas, seja a perda das nossas rotinas, dos nossos locais de culto, do empregou ou da estabilidade financeira, do convívio com os amigos, ou seja a perda de um ente querido sem poder dizer o último adeus…

Há cerca de dois meses atrás ouvi o autor David Kessler dizer num podcast :

“Estamos todos a lidar com a perda colectiva do mundo que conhecíamos. … Não sei como é que isto vai mudar, mas vai. Vamos encontrar sentido; vamos sair do outro lado disto … mas o mundo a que todos estávamos habituados já desapareceu.”

Quando o ouvi, as suas palavras já fizeram todo o sentido, mas à medida que o tempo avança, fazem ainda mais. Para quem não sabe quem é David Kessler, ele é, muito provavelmente, O Especialista de Luto por excelência. Ele tem trabalhado com luto e trauma desde o início da sua carreira, é co-autor, juntamente com a psiquiatra Elizabeth Kubler-Ross, dos livros “Life Lessons: Two Experts on Death and Dying Teach Us About the Mysteries of Life and Living e “On Grief and Grieving” e, recentemente, escreveu “Finding Meaning – the sixth stage of grieving”. David Kessler não só tem dedicado a sua vida a apoiar pessoas enlutadas, ao estudo e investigação da temática do luto, como experiênciou várias das perdas mais duras e significativas que um ser humano vivencia – a perda da mãe na adolescência e do seu filho mais novo há alguns anos atrás.

O que estamos a experienciar agora é o mesmo que sentimos quando sofremos uma perda significativa

Segundo Kessler, o que estamos a experienciar agora, os sentimentos que surgem são os mesmos que normalmente experienciamos quando sofremos uma perda significativa. A única diferença é que agora é um luto global. Nós apegamo-nos tanto a pessoas como a coisas ou a estilos de vida. E, embora alguns dos nossos apegos possam ser considerados triviais e sem importância para alguns, há muitas pequenas perdas que experienciamos e que representaram uma grande parte das nossas vidas.

Estamos gratos pelo que ainda temos mas podemos lamentar a perda das nossas vidas como costumavam ser. Sentimos falta de muitas das nossas velhas rotinas e do prazer que advém de muitas delas. Temos falta da confraternização com os nossos amigos, de ir tomar café, de almoçar fora e de estar perto uns dos outros. Faz-nos falta o convívio com os colegas de trabalho. É um luto colectivo que nos afecta a todos. Quando alguém perde um ente querido, os sentimentos de perda são agravados pela impossibilidade de poder abraçá-lo ou confortá-lo fisicamente ou mesmo de ir ao funeral. Já não podemos contar com os ombros dos nossos amigos para poder chorar. Lamentamos a perda do contacto humano e talvez nunca nos tivéssemos apercebido da importância que isso tinha para nós. Tomámos tanto por garantido.

É normal ficarmos transtornados com as perdas

De facto, é normal ficarmos transtornados. Afinal de contas, o nosso mundo foi virado do avesso. Perdemos o nosso sentido de segurança e protecção. Preocupamo-nos com os nossos filhos e com o impacto que isto terá sobre eles. Adiámos ou perdemos projectos, desfizeram-se sonhos. Sentimos falta das coisas que costumávamos fazer para nos distrairmos e aliviar o nosso stress, tais como ir ao ginásio, dançar, ir ao cinema, assistir a espetáculos, assistir ou participar em eventos desportivos. A lista é interminável. Entristecemo-nos com aspectos do nosso futuro que, aparentemente, mudaram para sempre. Perdemos tanto e é perfeitamente normal chorar o que perdemos. Podemos esperar encontrar alívio no futuro, mas as coisas já não voltam a ser como eram.

É normal que sintamos falta e lamentemos a perda destas partes das nossas vidas. Muitas destas actividades ajudaram a definir quem somos, como nos vemos a nós próprios, e como os outros nos vêem. O nosso luto certamente não atinge a magnitude do luto após uma morte, e consequentemente, muitos de nós recusamos reconhecer as nossas perdas não relacionadas com a morte.

Sentimo-nos culpados e envergonhados com este luto…

Sentimo-nos culpados, envergonhados, fracos ou constrangidos, porque a situação de outros é muito pior. De facto um dos maioires obstáculos para nos permitirmos chorar as nossas perdas actuais é a vergonha que muitas vezes se instala.

Eu, por exemplo, quando começo a sentir saudades dos velhos tempos, sinto-me muitas vezes mal com a minha própria ingratidão, sabendo que há outras pessoas a enfrentar problemas bem mais angustiantes, tais como perder um negócio, um emprego, ou o parceiro de uma vida. E, na verdade, a comparação do sofrimento nunca é útil e pode levar-nos a descartar as nossas próprias experiências. A investigadora da vulnerabilidade e vergonha Brené Brown expôs isto muito bem quando disse:

“(…) sem pensar, começamos a classificar o nosso sofrimento e a usá-lo para nos negarmos ou nos darmos permissão para sentir. (…) Mas não é assim que funciona a emoção ou o afecto. As emoções não desaparecem porque lhes enviamos uma mensagem de que estes sentimentos são inapropriados e não atingem níveis suficientemente elevados no quadro do sofrimento. (…) Todo o mito do sofrimento comparativo é a crença de que a empatia é finita. (…) É falso. Quando praticamos a empatia connosco próprios e com os outros, criamos mais empatia.”

É importante validarmos os nossos sentimentos de pesar

É importante termos presente que os nossos sentimentos são válidos. Podem ser diferentes dos outros, mas não há uma forma certa ou errada de sentir o que sentimos. Precisamos de nos darmos permissão para sentirmos tristeza e desgosto, até para que os nossos filhos sintam que o seu próprio sofirmento também é validado. Alguns de nós podem nem sequer ter consciencia de que o que têm estado a sentir é luto.

O luto pode afectar todas as áreas do nosso ser, não apenas os aspectos emocionais, mas também os físicos e espirituais. A primeira coisa que devemos fazer é reconhecer que as nossas perdas são reais e nos afectam. Depois precisamos de reconhecer os nossos sentimentos e falar sobre eles com alguém em quem possamos confiar e nos sintamos confortáveis. Por exemplo, um amigo ou membro da família que se encontre em circunstâncias semelhantes provavelmente compreenderá e relacionar-se-á com o que está a vivenciar.

Kessler escreve: “O luto de cada pessoa é tão único como a sua impressão digital. Mas o que todos têm em comum é que, independentemente da forma como sentem a dor, partilham a necessidade de que a sua dor seja testemunhada”.

O não reconhecimento do stress adicional associado à pandemia apresenta o risco de se culpar por algo que está fora do seu controlo. Quando o luto não é reconhecido, pode acabar por se acumular e sobrecarregar-nos num momento posterior. Não negue ou minimize o que está a experienciar, a fim de evitar o impacto de uma resposta de luto ainda mais intensa no futuro.

Se for caso disso, procure ajuda especializada.

 

Curar a dor Emocional

7 meses atrás · ·0 Comentários

Curar a dor Emocional

A vida reserva-nos muitas surpresas, umas boas outras nem por isso. Quando a vida nos deita abaixo, quer o previssemos ou não, a sensação é sempre a mesma: ficamos sem chão. Não sabemos como curar a dor emocional.

Como se reerguer quando a vida nos derruba?!

Então, como se reerguer quando a vida nos derruba? É nesses momentos que muitas vezes nos questionamos: “Porquê a mim?” ou “Porque é que isto aconteceu?” ou ainda “Que mal fiz eu a Deus para merecer isto?” – como se Deus fosse um poder vingativo que nos castiga com crueldade e impiedade, enquanto agonizamos na nossa vulnerabilidade. Curar a dor emocional é difícil e, muitas vezes nem sabemos como nos podemos reerguer.

Sabemos que o sofrimento faz parte da vida. A experiência humana envolve a probabilidade de termos de lidar com situações dolorosas como uma doença, um desgosto, a mágoa, a morte, o abandono. Todavia, embora todos possamos experienciar vivências semelhantes, toda a dor é pessoal e nenhuma dor é igual.

Palavras de consolo

Independentemente do número de vezes que passemos por experiências dolorosas, por mais que as pessoas bem-intencionadas nos digam: “Nós percebemos”, a verdade é que não percebem. Com efeito, até podemos ficar magoados com essas palavras de “consolo”. Os conselhos ou as frases feitas soam sempre a falso, ou podem mesmo parecer insultuosas, quando alguém está em profundamente sofrimento. Os clichés usuais que se dizem após uma perda,  muitas vezes, são mais nocivos do que reconfortantes.

Enquanto Caoch e Conselheira de Luto, tenho apoiado muitas pessoas nos seus processos de cura emocional, algumas profundamente magoadas. E, embora eu já tenha vivenciado a minha “dose” generosa de perdas significativas e sofrimento emocional, o que tenho constatado é que, quando a vida nos derruba demoramos a nos reerguer e, curar a dor emocional custa mais do que parece, à primeira vista.

A dor emocional fere profundamente a nossa alma

A recuperação emocional requer criar espaço para que a dor possa ser expressada, fazer o luto. No e-book “Curar, Superar, Viver” falo em maior detalhe sobre isto.É esse espaço seguro que facilito às pessoas que apoio. Quando clamam em pranto: “Porque é que isto me aconteceu?”, procuro fazê-las perceber e sentir que estou ali para elas, que reconheço a sua dor. Para que a cura ocorra é necessário validar que a dor é legítima, natural e é normal que a pessoa se sinta daquela forma. A dor emocional fere profundamente a nossa alma e é devastadora quando predemos alguém que amamos. Não há palavras que consolem ou confortem a dor devastadora da perda. Tudo o que conforta é o apoio incondicional a quem está a experienciar esse sofrimento.

A História da Fernanda*

Quando eu conheci a Fernanda, ela tinha acabado de sofrer uma das piores perdas que podemos sofrer: a morte da sua bebé de 9 meses. A bebé morrera durante a sesta, no infantário, vítima do sindrome de morte súbita. Durante as primeiras sessões individuais, ela sentava-se em frente a mim, altiva e estóica, como se não fosse nada com ela. Quando lhe perguntava como estava a lidar com a situação, respondia apenas: “As lágrimas não vão trazer a minha filha de volta”. Entretanto, ela retomara ao trabalho de recepcionista numa clínica, evitando encarar o seu sofrimento, e onde alimentava o ressentimento em relação às colegas que lhe mostravam fotos e filmes dos seus filhos pequenos.

Quando, numa sessão, lhe perguntei como estavam a lidar com a perda, o marido e a filha mais velha, ela ficou sem palavras. Os seus olhos arregalaram-se e enquanto lutava para engolir a sua dor e sufocar as suas lágrimas, começou a preparar-se para se levantar. Então, olhei-a nos olhos e disse-lhe carinhosamente: “Eu também perdi um filho.”

No momento em que partilhei com ela que eu também perdera o meu filho primogénito e que, tal como ela, eu optara por ignorar o meu sofrimento. Quando lhe expliquei o quato isso dificultou o meu processo de luto, além de ter causdo sofrimento desnecessário ao meu marido e à minha filha, as suas lágrimas começaram a caír em bica.

De repente, a Fernanda deixou-se afundar novamente na cadeira e deixou as lágrimas sair. Caíu num longo e soluçante pranto, enquanto abria espaço à sua dor. Nas semanas que se seguiram, ela chegava esperaçada às sessões. Lentamente, com a minha ajuda e apoio, ela percebeu que a melhor maneira de honrar a memória da sua filha era encontrar uma nova maneira de abraçar a vida.

O que fazer depois de ser magoada emocionalmente

Eu faço parte integrante daquele gupo de pessoas que têm o coração partido. Após múltiplas perdas profundamente significativas, umas mais devastadoras do que outras, desde o meu filho primogénito, os meus pais, duas perdas gestacionais, uma irmã e vários entes queridos, poder-se-ia dizer que me tornei perita no sofrimento. Todavia, o que aprendi após mais de 5 anos a apoiar pessoas no seu processo de cura emocional e com as minhas próprias vivências, é que a quer seja em processos de luto ou perda, trauma ou burnout (além das minhas perdas pessoais), o que eu aprendi é que, quando somos violentamente derrubados pela vida, a recuperação é lenta, sofrida e demorada. Não nos conseguimos voltar a  reerguer facilmente. Até podemos ter o impulso de nos reerguermos e de recomeçarmos a andar, mas isso só agravará a situação.

Como apoiar o seu processo de cura emocional

Tal como acontece quando tropeçamos e caímos,  se fizermos  uma lesão e a ignorarmos só agravamos a situação. A dor emocional, tal como qualquer dor física, exige igual atenção. Ela precisa de ser reconhecida e acolhida antes de podermos seguir em frente. Já chorei muito sozinha, na rua, no escritório, no carro, no cemitério… outras vezes com amigos e familiares, às vezes com clientes. E, como a maioria das pessoas, tentei esquivar-me à tristeza, mas, como acontece com todos, ela acabou por me encontrar. A dor emocional é uma das certezas cruéis da vida, se nos permitirmos amar o sufuciente.

Foi Sigmund Freud quem primeiro trouxe à tona o conceito de trabalho de luto e, embora as tarefas específicas que ele delineou tenham sido reconsideradas ao longo dos anos desde a publicação do seu livro “Luto e Melancolia” em 1917, a ideia de que o luto é proposital continua no século XXI. Há muita literatura que refere fases do luto, etapas do luto e até tarefas do luto.

As Quatro Tarefas do Luto

No final da década de 1990, James Worden, professor de psicologia, optou por ver o trabalho de luto como orientado por tarefas. No seu artigo de 1996, “Tarefas e Mediadores do Luto – Um Guia para o Profissional de Saúde Mental”, ele delineou as quatro tarefas seguintes:

1. Aceitar a realidade da perda.
2. Processar a dor do luto
3. A adaptação ao mundo sem o falecido
4. Encontrar uma ligação duradoura com a pessoa que se perdeu enquanto se empreende uma nova vida.

Segundo Worden, o trabalho que se desenvolve durante o processo de luto, irá focar a nossa atenção no alcance de cada um desses objectivos. Isso irá ocorrer sem nenhuma ordem lógica, porque, afinal, cada um de nós é diferente e o caminho que percorremos na jornada de luto não é um caminho linear. Na verdade, aqueles de entre nós que estão de luto flutuam naturalmente entre a tristeza e a normalidade. É um processo de adaptação, no qual nós nos movimentamos entre as actividades orientadas para a perda ( o processamento da dor do luto) e as actividades orientadas para a restauração (a adaptação à vida sem os nossos entes queridos, esforçando-se para criar conexões duradouras com quem perdemos).

Não há receitas mágicas para a cura emocional

Embora sem se referir às tarefas do luto, o famoso escritor francês Honoré de Balzac captou o valor do trabalho de luto quando disse: “Toda a felicidade depende da coragem e do trabalho”. Com efeito, não há receitas mágicas para elaborar um processo de luto. Mas, com efeito, é realmente necessário coragem e trabalho duro para se adaptar com sucesso à perda de um ente querido ou de algo significativo na nossa vida, todavia, é possível alcançá-lo. Com apoio, compreensão, compaixão e coragem, é possível voltar a sorrir e viver uma vida com significado, como a Fernanda.

Alguns anos depois de terminar a sua terapia de luto, a Fernanda telefonou-me para me contar as novidades acerca da sua vida. Ela deixara o emprego na clínica, formara-se em terapia da fala, e estava a trabalhar numa escola para crianças com necessidades especiais. Quando lhe perguntei como se sentia, ela respondeu simplesmente: “Eu ainda sinto muita falta dela. Mas agora tenho tantos filhos para cuidar… Gosto de imaginar que a minha filha, onde quer que esteja, está muito orgulhosa da mãe que tem”.

A dor da perda nunca é igual, percebi isso com as várias pesoas que tenho apoiado e com as perdas pessoais profundas que sofri. Mas, para ser elaborada ela precisa de ser sentida. Precisamos de atravessar a porta da dor, honrá-la, não fugir dela.

*(nome fictício para proteger a privacidade da cliente)

P.S. Se gostou deste artigo, e se gostaria de ler mais artigos sobre este tema, deixe um comentário ou envie-me um e-mail. Talvez tenha interesse num outro que escrevi sobre o luto em crianças e  adolescentes. Também pode encontrar alguns recursos úteis para apoiar no seu processo de cura neste e-book

O Luto em Crianças e Adolescentes

11 meses atrás · ·0 Comentários

O Luto em Crianças e Adolescentes

A morte é um assunto Tabu na nossa sociedade (Ocidental) e, consequentemente, o tema não é abordado nas escolas nem pelas famílias. Todavia é expectável que, qualquer pessoa que viva de acordo com a esperança de vida estimada, sofra muitas perdas ao longo da sua vida, sejam de familiares e amigos, de colegas ou de animais de estimação. O resultado desta atitude é que, quando a perda ocorre não sabemos o que fazer e/ou dizer às crianças, deixando-as à deriva, confusas e frequentemente assustadas.

Como explicar a morte às crianças e adolescentes

Se o adulto, perante a morte fica desorientado, a criança e o adolescente ficam muito mais perdidas pois falta-lhes a informação, a explicação do que aconteceu e de como irá continuar a viver sem o ente querido que perdeu. É óbvio que isso irá causar-lhes dor e sofrimento, mas, para que haja uma compreensão da morte e possam iniciar o processo de luto, esse é o primeiro passo a dar. A elaboração do luto implica, necessariamente, sentir a dor da perda.

A criança, tal como o adulto, tem idêntica dificuldade em compreender a morte como irreversível, mas se ela já teve um animal de estimação que morreu, pode sempre usar-se o exemplo para explicar-lhe essa irreversibilidade. Também é útil dizer à criança que é natural sentir tristeza e/ou vontade de chorar, ou desejar que o ente querido volte, pois isso vai de encontro ao que ela está a experienciar e dá-lhe a segurança de que os seus sentimentos e emoções são aceites, que é compreendida.

Se a família acredita na vida depois da morte, ou tem crenças religiosas, filosóficas ou outras, deve explicá-las à criança para que esta possa entendê-las e participar no luto familiar. Estas práticas irão ajudar a criança a sentir o seu pesar pelo ente querido, e a expressar as suas emoções e pensamentos de forma saudável.

Por mais doloroso e penoso que seja para o adulto, a criança deve ser informada tão cedo quanto possível, da perda. A verdade é que temos tanto medo de traumatizar a criança que, em geral, optamos por ocultar a verdade à criança dizendo que o ente querido foi viajar, ou que agora é uma estrelinha… e isto é precisamente o que não se deve dizer.

O que não dizer à criança

Quando a pessoa morre, por mais penoso que seja para o adulto, há coisas que nunca deve dizer que:

  • foi viajar – a criança aguarda pelo regresso do ente querido e, quando se apercebe do logro, culpa o adulto pelo engano e perde a confiança.
  • está a dormir – a criança interpreta isso de forma literal e pode suscitar-lhe medo de adormecer e não voltar a acordar.
  • foi para o céu – a criança acredita que o céu é um lugar como os outros e, por conseguinte, aguarda o seu regresso.

O luto deve ser vivenciado em família, portanto a tristeza e a dor devem ser partilhadas e não ocultadas da criança e/ou do adolescente, sob pena de optarem, também elas, por esconder as suas emoções, deixar de fazer perguntas ou expressar os seus sentimentos.

O que a criança necessita para fazer o luto

A criança – ou adolescente –  para elaborar o seu luto de forma saudável, necessita sentir-se amada, protegida, bem nutrida e acolhida no seio da família (ou pelos cuidadores). O processo de luto da criança torna-se mais fácil se esta se sentir segura para falar das suas angústias e dos seus sentimentos. O adolescente, em particular, precisa sentir esta segurança e protecção na medida em que, além das suas próprias mudanças sente que os seus pares não o compreendem.

Em suma, o que as crianças ou os adolescentes precisam para lidar com a perda de uma forma saudável é de ser tratada com honestidade e sinceridade; de se sentir amadas, escutadas e compreendidas. Precisam de sentir que têm liberdade de expressão e alguém que as ouça e compreenda, e que, sempre que queiram, dispõem de um porto de abrigo seguro onde se refugiar.

P.S. Se este artigo lhe suscitou interesse, pesquise outros artigos sobre o tema no blog

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