Arquivo de Luto e Perdas - Ana Paula Vieira

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Luto colectivo

2 semanas atrás · ·0 Comentários

Luto colectivo

A COVID-19 teve e continua a ter um profundo impacto nas nossas vidas. Não sabemos o que vai emergir desta pandemia, mas sabemos que todos perdemos muito. Perdemos tanto que estamos agora a lidar com um luto colectivo.

Normalmente, quando pensamos no luto,  pensamos na perda (por morte) de um ente querido. No entanto, podemos sentir pesar por qualquer coisa, física ou imaterial, a que estejamos emocionalmente apegados. A questão é nunca nos tínhamos apercebido da quantidade de coisas a que estávamos apegados. Tomámos tantas coisas como adquiridas e, de um dia para o outro, a nossa realidade mudou.

Cada um de nós está a enfrentar perdas significativas

Cada um de nós está a enfrentar o luto por perdas significativas, seja a perda das nossas rotinas, dos nossos locais de culto, do empregou ou da estabilidade financeira, do convívio com os amigos, ou seja a perda de um ente querido sem poder dizer o último adeus…

Há cerca de dois meses atrás ouvi o autor David Kessler dizer num podcast :

“Estamos todos a lidar com a perda colectiva do mundo que conhecíamos. … Não sei como é que isto vai mudar, mas vai. Vamos encontrar sentido; vamos sair do outro lado disto … mas o mundo a que todos estávamos habituados já desapareceu.”

Quando o ouvi, as suas palavras já fizeram todo o sentido, mas à medida que o tempo avança, fazem ainda mais. Para quem não sabe quem é David Kessler, ele é, muito provavelmente, O Especialista de Luto por excelência. Ele tem trabalhado com luto e trauma desde o início da sua carreira, é co-autor, juntamente com a psiquiatra Elizabeth Kubler-Ross, dos livros “Life Lessons: Two Experts on Death and Dying Teach Us About the Mysteries of Life and Living e “On Grief and Grieving” e, recentemente, escreveu “Finding Meaning – the sixth stage of grieving”. David Kessler não só tem dedicado a sua vida a apoiar pessoas enlutadas, ao estudo e investigação da temática do luto, como experiênciou várias das perdas mais duras e significativas que um ser humano vivencia – a perda da mãe na adolescência e do seu filho mais novo há alguns anos atrás.

O que estamos a experienciar agora é o mesmo que sentimos quando sofremos uma perda significativa

Segundo Kessler, o que estamos a experienciar agora, os sentimentos que surgem são os mesmos que normalmente experienciamos quando sofremos uma perda significativa. A única diferença é que agora é um luto global. Nós apegamo-nos tanto a pessoas como a coisas ou a estilos de vida. E, embora alguns dos nossos apegos possam ser considerados triviais e sem importância para alguns, há muitas pequenas perdas que experienciamos e que representaram uma grande parte das nossas vidas.

Estamos gratos pelo que ainda temos mas podemos lamentar a perda das nossas vidas como costumavam ser. Sentimos falta de muitas das nossas velhas rotinas e do prazer que advém de muitas delas. Temos falta da confraternização com os nossos amigos, de ir tomar café, de almoçar fora e de estar perto uns dos outros. Faz-nos falta o convívio com os colegas de trabalho. É um luto colectivo que nos afecta a todos. Quando alguém perde um ente querido, os sentimentos de perda são agravados pela impossibilidade de poder abraçá-lo ou confortá-lo fisicamente ou mesmo de ir ao funeral. Já não podemos contar com os ombros dos nossos amigos para poder chorar. Lamentamos a perda do contacto humano e talvez nunca nos tivéssemos apercebido da importância que isso tinha para nós. Tomámos tanto por garantido.

É normal ficarmos transtornados com as perdas

De facto, é normal ficarmos transtornados. Afinal de contas, o nosso mundo foi virado do avesso. Perdemos o nosso sentido de segurança e protecção. Preocupamo-nos com os nossos filhos e com o impacto que isto terá sobre eles. Adiámos ou perdemos projectos, desfizeram-se sonhos. Sentimos falta das coisas que costumávamos fazer para nos distrairmos e aliviar o nosso stress, tais como ir ao ginásio, dançar, ir ao cinema, assistir a espetáculos, assistir ou participar em eventos desportivos. A lista é interminável. Entristecemo-nos com aspectos do nosso futuro que, aparentemente, mudaram para sempre. Perdemos tanto e é perfeitamente normal chorar o que perdemos. Podemos esperar encontrar alívio no futuro, mas as coisas já não voltam a ser como eram.

É normal que sintamos falta e lamentemos a perda destas partes das nossas vidas. Muitas destas actividades ajudaram a definir quem somos, como nos vemos a nós próprios, e como os outros nos vêem. O nosso luto certamente não atinge a magnitude do luto após uma morte, e consequentemente, muitos de nós recusamos reconhecer as nossas perdas não relacionadas com a morte.

Sentimo-nos culpados e envergonhados com este luto…

Sentimo-nos culpados, envergonhados, fracos ou constrangidos, porque a situação de outros é muito pior. De facto um dos maioires obstáculos para nos permitirmos chorar as nossas perdas actuais é a vergonha que muitas vezes se instala.

Eu, por exemplo, quando começo a sentir saudades dos velhos tempos, sinto-me muitas vezes mal com a minha própria ingratidão, sabendo que há outras pessoas a enfrentar problemas bem mais angustiantes, tais como perder um negócio, um emprego, ou o parceiro de uma vida. E, na verdade, a comparação do sofrimento nunca é útil e pode levar-nos a descartar as nossas próprias experiências. A investigadora da vulnerabilidade e vergonha Brené Brown expôs isto muito bem quando disse:

“(…) sem pensar, começamos a classificar o nosso sofrimento e a usá-lo para nos negarmos ou nos darmos permissão para sentir. (…) Mas não é assim que funciona a emoção ou o afecto. As emoções não desaparecem porque lhes enviamos uma mensagem de que estes sentimentos são inapropriados e não atingem níveis suficientemente elevados no quadro do sofrimento. (…) Todo o mito do sofrimento comparativo é a crença de que a empatia é finita. (…) É falso. Quando praticamos a empatia connosco próprios e com os outros, criamos mais empatia.”

É importante validarmos os nossos sentimentos de pesar

É importante termos presente que os nossos sentimentos são válidos. Podem ser diferentes dos outros, mas não há uma forma certa ou errada de sentir o que sentimos. Precisamos de nos darmos permissão para sentirmos tristeza e desgosto, até para que os nossos filhos sintam que o seu próprio sofirmento também é validado. Alguns de nós podem nem sequer ter consciencia de que o que têm estado a sentir é luto.

O luto pode afectar todas as áreas do nosso ser, não apenas os aspectos emocionais, mas também os físicos e espirituais. A primeira coisa que devemos fazer é reconhecer que as nossas perdas são reais e nos afectam. Depois precisamos de reconhecer os nossos sentimentos e falar sobre eles com alguém em quem possamos confiar e nos sintamos confortáveis. Por exemplo, um amigo ou membro da família que se encontre em circunstâncias semelhantes provavelmente compreenderá e relacionar-se-á com o que está a vivenciar.

Kessler escreve: “O luto de cada pessoa é tão único como a sua impressão digital. Mas o que todos têm em comum é que, independentemente da forma como sentem a dor, partilham a necessidade de que a sua dor seja testemunhada”.

O não reconhecimento do stress adicional associado à pandemia apresenta o risco de se culpar por algo que está fora do seu controlo. Quando o luto não é reconhecido, pode acabar por se acumular e sobrecarregar-nos num momento posterior. Não negue ou minimize o que está a experienciar, a fim de evitar o impacto de uma resposta de luto ainda mais intensa no futuro.

Se for caso disso, procure ajuda especializada.

 

Curar a dor Emocional

5 meses atrás · ·0 Comentários

Curar a dor Emocional

A vida reserva-nos muitas surpresas, umas boas outras nem por isso. Quando a vida nos deita abaixo, quer o previssemos ou não, a sensação é sempre a mesma: ficamos sem chão. Não sabemos como curar a dor emocional.

Como se reerguer quando a vida nos derruba?!

Então, como se reerguer quando a vida nos derruba? É nesses momentos que muitas vezes nos questionamos: “Porquê a mim?” ou “Porque é que isto aconteceu?” ou ainda “Que mal fiz eu a Deus para merecer isto?” – como se Deus fosse um poder vingativo que nos castiga com crueldade e impiedade, enquanto agonizamos na nossa vulnerabilidade. Curar a dor emocional é difícil e, muitas vezes nem sabemos como nos podemos reerguer.

Sabemos que o sofrimento faz parte da vida. A experiência humana envolve a probabilidade de termos de lidar com situações dolorosas como uma doença, um desgosto, a mágoa, a morte, o abandono. Todavia, embora todos possamos experienciar vivências semelhantes, toda a dor é pessoal e nenhuma dor é igual.

Palavras de consolo

Independentemente do número de vezes que passemos por experiências dolorosas, por mais que as pessoas bem-intencionadas nos digam: “Nós percebemos”, a verdade é que não percebem. Com efeito, até podemos ficar magoados com essas palavras de “consolo”. Os conselhos ou as frases feitas soam sempre a falso, ou podem mesmo parecer insultuosas, quando alguém está em profundamente sofrimento. Os clichés usuais que se dizem após uma perda,  muitas vezes, são mais nocivos do que reconfortantes.

Enquanto Caoch e Conselheira de Luto, tenho apoiado muitas pessoas nos seus processos de cura emocional, algumas profundamente magoadas. E, embora eu já tenha vivenciado a minha “dose” generosa de perdas significativas e sofrimento emocional, o que tenho constatado é que, quando a vida nos derruba demoramos a nos reerguer e, curar a dor emocional custa mais do que parece, à primeira vista.

A dor emocional fere profundamente a nossa alma

A recuperação emocional requer criar espaço para que a dor possa ser expressada, fazer o luto. No e-book “Curar, Superar, Viver” falo em maior detalhe sobre isto.É esse espaço seguro que facilito às pessoas que apoio. Quando clamam em pranto: “Porque é que isto me aconteceu?”, procuro fazê-las perceber e sentir que estou ali para elas, que reconheço a sua dor. Para que a cura ocorra é necessário validar que a dor é legítima, natural e é normal que a pessoa se sinta daquela forma. A dor emocional fere profundamente a nossa alma e é devastadora quando predemos alguém que amamos. Não há palavras que consolem ou confortem a dor devastadora da perda. Tudo o que conforta é o apoio incondicional a quem está a experienciar esse sofrimento.

A História da Fernanda*

Quando eu conheci a Fernanda, ela tinha acabado de sofrer uma das piores perdas que podemos sofrer: a morte da sua bebé de 9 meses. A bebé morrera durante a sesta, no infantário, vítima do sindrome de morte súbita. Durante as primeiras sessões individuais, ela sentava-se em frente a mim, altiva e estóica, como se não fosse nada com ela. Quando lhe perguntava como estava a lidar com a situação, respondia apenas: “As lágrimas não vão trazer a minha filha de volta”. Entretanto, ela retomara ao trabalho de recepcionista numa clínica, evitando encarar o seu sofrimento, e onde alimentava o ressentimento em relação às colegas que lhe mostravam fotos e filmes dos seus filhos pequenos.

Quando, numa sessão, lhe perguntei como estavam a lidar com a perda, o marido e a filha mais velha, ela ficou sem palavras. Os seus olhos arregalaram-se e enquanto lutava para engolir a sua dor e sufocar as suas lágrimas, começou a preparar-se para se levantar. Então, olhei-a nos olhos e disse-lhe carinhosamente: “Eu também perdi um filho.”

No momento em que partilhei com ela que eu também perdera o meu filho primogénito e que, tal como ela, eu optara por ignorar o meu sofrimento. Quando lhe expliquei o quato isso dificultou o meu processo de luto, além de ter causdo sofrimento desnecessário ao meu marido e à minha filha, as suas lágrimas começaram a caír em bica.

De repente, a Fernanda deixou-se afundar novamente na cadeira e deixou as lágrimas sair. Caíu num longo e soluçante pranto, enquanto abria espaço à sua dor. Nas semanas que se seguiram, ela chegava esperaçada às sessões. Lentamente, com a minha ajuda e apoio, ela percebeu que a melhor maneira de honrar a memória da sua filha era encontrar uma nova maneira de abraçar a vida.

O que fazer depois de ser magoada emocionalmente

Eu faço parte integrante daquele gupo de pessoas que têm o coração partido. Após múltiplas perdas profundamente significativas, umas mais devastadoras do que outras, desde o meu filho primogénito, os meus pais, duas perdas gestacionais, uma irmã e vários entes queridos, poder-se-ia dizer que me tornei perita no sofrimento. Todavia, o que aprendi após mais de 5 anos a apoiar pessoas no seu processo de cura emocional e com as minhas próprias vivências, é que a quer seja em processos de luto ou perda, trauma ou burnout (além das minhas perdas pessoais), o que eu aprendi é que, quando somos violentamente derrubados pela vida, a recuperação é lenta, sofrida e demorada. Não nos conseguimos voltar a  reerguer facilmente. Até podemos ter o impulso de nos reerguermos e de recomeçarmos a andar, mas isso só agravará a situação.

Como apoiar o seu processo de cura emocional

Tal como acontece quando tropeçamos e caímos,  se fizermos  uma lesão e a ignorarmos só agravamos a situação. A dor emocional, tal como qualquer dor física, exige igual atenção. Ela precisa de ser reconhecida e acolhida antes de podermos seguir em frente. Já chorei muito sozinha, na rua, no escritório, no carro, no cemitério… outras vezes com amigos e familiares, às vezes com clientes. E, como a maioria das pessoas, tentei esquivar-me à tristeza, mas, como acontece com todos, ela acabou por me encontrar. A dor emocional é uma das certezas cruéis da vida, se nos permitirmos amar o sufuciente.

Foi Sigmund Freud quem primeiro trouxe à tona o conceito de trabalho de luto e, embora as tarefas específicas que ele delineou tenham sido reconsideradas ao longo dos anos desde a publicação do seu livro “Luto e Melancolia” em 1917, a ideia de que o luto é proposital continua no século XXI. Há muita literatura que refere fases do luto, etapas do luto e até tarefas do luto.

As Quatro Tarefas do Luto

No final da década de 1990, James Worden, professor de psicologia, optou por ver o trabalho de luto como orientado por tarefas. No seu artigo de 1996, “Tarefas e Mediadores do Luto – Um Guia para o Profissional de Saúde Mental”, ele delineou as quatro tarefas seguintes:

1. Aceitar a realidade da perda.
2. Processar a dor do luto
3. A adaptação ao mundo sem o falecido
4. Encontrar uma ligação duradoura com a pessoa que se perdeu enquanto se empreende uma nova vida.

Segundo Worden, o trabalho que se desenvolve durante o processo de luto, irá focar a nossa atenção no alcance de cada um desses objectivos. Isso irá ocorrer sem nenhuma ordem lógica, porque, afinal, cada um de nós é diferente e o caminho que percorremos na jornada de luto não é um caminho linear. Na verdade, aqueles de entre nós que estão de luto flutuam naturalmente entre a tristeza e a normalidade. É um processo de adaptação, no qual nós nos movimentamos entre as actividades orientadas para a perda ( o processamento da dor do luto) e as actividades orientadas para a restauração (a adaptação à vida sem os nossos entes queridos, esforçando-se para criar conexões duradouras com quem perdemos).

Não há receitas mágicas para a cura emocional

Embora sem se referir às tarefas do luto, o famoso escritor francês Honoré de Balzac captou o valor do trabalho de luto quando disse: “Toda a felicidade depende da coragem e do trabalho”. Com efeito, não há receitas mágicas para elaborar um processo de luto. Mas, com efeito, é realmente necessário coragem e trabalho duro para se adaptar com sucesso à perda de um ente querido ou de algo significativo na nossa vida, todavia, é possível alcançá-lo. Com apoio, compreensão, compaixão e coragem, é possível voltar a sorrir e viver uma vida com significado, como a Fernanda.

Alguns anos depois de terminar a sua terapia de luto, a Fernanda telefonou-me para me contar as novidades acerca da sua vida. Ela deixara o emprego na clínica, formara-se em terapia da fala, e estava a trabalhar numa escola para crianças com necessidades especiais. Quando lhe perguntei como se sentia, ela respondeu simplesmente: “Eu ainda sinto muita falta dela. Mas agora tenho tantos filhos para cuidar… Gosto de imaginar que a minha filha, onde quer que esteja, está muito orgulhosa da mãe que tem”.

A dor da perda nunca é igual, percebi isso com as várias pesoas que tenho apoiado e com as perdas pessoais profundas que sofri. Mas, para ser elaborada ela precisa de ser sentida. Precisamos de atravessar a porta da dor, honrá-la, não fugir dela.

*(nome fictício para proteger a privacidade da cliente)

P.S. Se gostou deste artigo, e se gostaria de ler mais artigos sobre este tema, deixe um comentário ou envie-me um e-mail. Talvez tenha interesse num outro que escrevi sobre o luto em crianças e  adolescentes. Também pode encontrar alguns recursos úteis para apoiar no seu processo de cura neste e-book

O Luto em Crianças e Adolescentes

9 meses atrás · ·0 Comentários

O Luto em Crianças e Adolescentes

A morte é um assunto Tabu na nossa sociedade (Ocidental) e, consequentemente, o tema não é abordado nas escolas nem pelas famílias. Todavia é expectável que, qualquer pessoa que viva de acordo com a esperança de vida estimada, sofra muitas perdas ao longo da sua vida, sejam de familiares e amigos, de colegas ou de animais de estimação. O resultado desta atitude é que, quando a perda ocorre não sabemos o que fazer e/ou dizer às crianças, deixando-as à deriva, confusas e frequentemente assustadas.

Como explicar a morte às crianças e adolescentes

Se o adulto, perante a morte fica desorientado, a criança e o adolescente ficam muito mais perdidas pois falta-lhes a informação, a explicação do que aconteceu e de como irá continuar a viver sem o ente querido que perdeu. É óbvio que isso irá causar-lhes dor e sofrimento, mas, para que haja uma compreensão da morte e possam iniciar o processo de luto, esse é o primeiro passo a dar. A elaboração do luto implica, necessariamente, sentir a dor da perda.

A criança, tal como o adulto, tem idêntica dificuldade em compreender a morte como irreversível, mas se ela já teve um animal de estimação que morreu, pode sempre usar-se o exemplo para explicar-lhe essa irreversibilidade. Também é útil dizer à criança que é natural sentir tristeza e/ou vontade de chorar, ou desejar que o ente querido volte, pois isso vai de encontro ao que ela está a experienciar e dá-lhe a segurança de que os seus sentimentos e emoções são aceites, que é compreendida.

Se a família acredita na vida depois da morte, ou tem crenças religiosas, filosóficas ou outras, deve explicá-las à criança para que esta possa entendê-las e participar no luto familiar. Estas práticas irão ajudar a criança a sentir o seu pesar pelo ente querido, e a expressar as suas emoções e pensamentos de forma saudável.

Por mais doloroso e penoso que seja para o adulto, a criança deve ser informada tão cedo quanto possível, da perda. A verdade é que temos tanto medo de traumatizar a criança que, em geral, optamos por ocultar a verdade à criança dizendo que o ente querido foi viajar, ou que agora é uma estrelinha… e isto é precisamente o que não se deve dizer.

O que não dizer à criança

Quando a pessoa morre, por mais penoso que seja para o adulto, há coisas que nunca deve dizer que:

  • foi viajar – a criança aguarda pelo regresso do ente querido e, quando se apercebe do logro, culpa o adulto pelo engano e perde a confiança.
  • está a dormir – a criança interpreta isso de forma literal e pode suscitar-lhe medo de adormecer e não voltar a acordar.
  • foi para o céu – a criança acredita que o céu é um lugar como os outros e, por conseguinte, aguarda o seu regresso.

O luto deve ser vivenciado em família, portanto a tristeza e a dor devem ser partilhadas e não ocultadas da criança e/ou do adolescente, sob pena de optarem, também elas, por esconder as suas emoções, deixar de fazer perguntas ou expressar os seus sentimentos.

O que a criança necessita para fazer o luto

A criança – ou adolescente –  para elaborar o seu luto de forma saudável, necessita sentir-se amada, protegida, bem nutrida e acolhida no seio da família (ou pelos cuidadores). O processo de luto da criança torna-se mais fácil se esta se sentir segura para falar das suas angústias e dos seus sentimentos. O adolescente, em particular, precisa sentir esta segurança e protecção na medida em que, além das suas próprias mudanças sente que os seus pares não o compreendem.

Em suma, o que as crianças ou os adolescentes precisam para lidar com a perda de uma forma saudável é de ser tratada com honestidade e sinceridade; de se sentir amadas, escutadas e compreendidas. Precisam de sentir que têm liberdade de expressão e alguém que as ouça e compreenda, e que, sempre que queiram, dispõem de um porto de abrigo seguro onde se refugiar.

P.S. Se este artigo lhe suscitou interesse, pesquise outros artigos sobre o tema no blog

Vitimização e Manipulação – São coisas distintas ou subsistem juntas?

10 meses atrás · ·2 comentários

Vitimização e Manipulação – São coisas distintas ou subsistem juntas?

Todos nós, provavelmente, em algum momento da nossa vida, já nos sentimos vítimas. Face a circunstâncias difíceis das nossas vidas em que tivemos de enfrentar experiências dolorosas ou traumáticas, certamente nos sentimos vulneráveis e frágeis, desejosos de cuidado e protecção.

Neste tipo de situações em que existe uma condição objectiva de vitimização, a vítima requer atenção, cuidado, apoio e carinho.  Todavia esta é uma condição passageira, muito diferente daquela em que a pessoa passa a ostentar a condição de vítima como algo definitivo. A isto se chama cultura da Vitimização e da Manipulação emocional.

Comecemos pela Vitimização!

A vitimização ocorre quando o acontecimento traumático se converte em identidade própria da pessoa que o experienciou.  Ao descobrirem que, sendo vítimas, beneficiam do cuidado e atenção permanente dos outros, as pessoas com tendência para a vitimização, entram num ciclo vicioso de chamada de atenção. A vitimização, só por si, não é uma patologia classificada no DSM-5, embora indicie a possibilidade do desenvolvimento de um transtorno paranóico de personalidade.

As pessoas com propensão à vitimização acreditam que tudo que lhes acontece é culpa dos outros ou das circunstâncias. O seu locus de controlo é externo, ou seja, a pessoa não assume a responsabilidade pelas suas próprias acções. Pelo contrário, transfere-a para factores externos, alheios a si própria.

A vitimização é uma estratégia benéfica para quem assume a condição de vítima

A vitimização é, em muitas situações, uma estratégia extremamente benéfica para a pessoa que assume a condição de vítima, porque lhe permite obter privilégios que de outra forma não conseguiria alcançar. A pessoa acaba por contar, de uma forma ou de outra, com a compaixão e a compreensão das outras pessoas, independentemente do que faça.

Com efeito, quem coloque em causa os comportamentos e as acções das supostas vítimas, arrisca-se a ser apontado como desumano ou insensível. Este aspecto abre espaço para uma espécie de permissividade e imunidade, dando total cobertura a tudo o que a vítima diz ou faz, sem questionar. Todavia, a vitimização calculada, seja ela consciente ou inconsciente, encobre uma espécie de chantagem emocional.

A manipulação é uma estratégia da pessoa propensa à vitimização

A manipulação é uma estratégia desenvolvida pela pessoa com propensão para a vitimização, no sentido de ver satisfeitas as suas necessidades de atenção. O manipulador emocional usa a sua condição de vítima para impor os seus desejos e caprichos. O manipulador age de forma a que o outro se sinta culpado e faça tudo o que ele deseja. Esse é o grande problema da manipulação. Por ser um comportamento velado, as pessoas que são manipuladas nem sempre se apercebem do que está realmente a acontecer e acabam por ser iludidas permitindo que os manipuladores façam o que querem.

O manipulador usa a chantagem como forma de comunicação

O manipulador usa a chantagem emocional como forma de comunicação. Quando as outras pessoas não fazem o que ele desejacoloca-as no papel de carrascos, reclamando para si mesmos o papel de vítima. Essa atitude provoca sentimentos de culpa nos outros que tudo farão para corrigir o dano causado, mesmo que tenham de abdicar de si mesmos.

A pessoa manipuladora com tendência à vitimização é capaz de fazer grandes sacrifícios pelos outros, sem que ninguém lhe peça nada, colocando-se assim no papel de vítima da vida. Quando alguém apresenta este tipo de comportamento, estamos perante uma pessoa com baixa auto-estima que só se sente válida quando se sacrifica em prol dos outros.

Nestes casos, trata-se de alguém que não fechou o ciclo de uma experiência traumática ou que perdeu o gosto pela vida. Estas pessoas precisam de apoio urgente. Necessitam de alguém que as compreenda, que seja emocionalmente competente, que lhes mostre compaixão e as ajude a lidar com o seu trauma e a desenvolver maturidade emocional, para mudarem de atitude.

Em conclusão: a cultura da vitimização e da manipulação leva-nos a renunciar aos nossos próprios desejos e necessidades em prol dos outros. Este tipo de comportamento é comum em pessoas emocionalmente imaturas ou com baixo QE. Assim, é importante que estejamos conscientes destes padrões de comportamento, não só para nos protegermos, mas também para ajudarmos a promover a mudança na pessoa que assume o papel de vítima e/ou manipuladora.

Feito com ♥ por Ana Paula Vieira
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