Arquivo de medos - Ana Paula Vieira

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Luto colectivo

1 mês atrás · ·0 Comentários

Luto colectivo

A COVID-19 teve e continua a ter um profundo impacto nas nossas vidas. Não sabemos o que vai emergir desta pandemia, mas sabemos que todos perdemos muito. Perdemos tanto que estamos agora a lidar com um luto colectivo.

Normalmente, quando pensamos no luto,  pensamos na perda (por morte) de um ente querido. No entanto, podemos sentir pesar por qualquer coisa, física ou imaterial, a que estejamos emocionalmente apegados. A questão é nunca nos tínhamos apercebido da quantidade de coisas a que estávamos apegados. Tomámos tantas coisas como adquiridas e, de um dia para o outro, a nossa realidade mudou.

Cada um de nós está a enfrentar perdas significativas

Cada um de nós está a enfrentar o luto por perdas significativas, seja a perda das nossas rotinas, dos nossos locais de culto, do empregou ou da estabilidade financeira, do convívio com os amigos, ou seja a perda de um ente querido sem poder dizer o último adeus…

Há cerca de dois meses atrás ouvi o autor David Kessler dizer num podcast :

“Estamos todos a lidar com a perda colectiva do mundo que conhecíamos. … Não sei como é que isto vai mudar, mas vai. Vamos encontrar sentido; vamos sair do outro lado disto … mas o mundo a que todos estávamos habituados já desapareceu.”

Quando o ouvi, as suas palavras já fizeram todo o sentido, mas à medida que o tempo avança, fazem ainda mais. Para quem não sabe quem é David Kessler, ele é, muito provavelmente, O Especialista de Luto por excelência. Ele tem trabalhado com luto e trauma desde o início da sua carreira, é co-autor, juntamente com a psiquiatra Elizabeth Kubler-Ross, dos livros “Life Lessons: Two Experts on Death and Dying Teach Us About the Mysteries of Life and Living e “On Grief and Grieving” e, recentemente, escreveu “Finding Meaning – the sixth stage of grieving”. David Kessler não só tem dedicado a sua vida a apoiar pessoas enlutadas, ao estudo e investigação da temática do luto, como experiênciou várias das perdas mais duras e significativas que um ser humano vivencia – a perda da mãe na adolescência e do seu filho mais novo há alguns anos atrás.

O que estamos a experienciar agora é o mesmo que sentimos quando sofremos uma perda significativa

Segundo Kessler, o que estamos a experienciar agora, os sentimentos que surgem são os mesmos que normalmente experienciamos quando sofremos uma perda significativa. A única diferença é que agora é um luto global. Nós apegamo-nos tanto a pessoas como a coisas ou a estilos de vida. E, embora alguns dos nossos apegos possam ser considerados triviais e sem importância para alguns, há muitas pequenas perdas que experienciamos e que representaram uma grande parte das nossas vidas.

Estamos gratos pelo que ainda temos mas podemos lamentar a perda das nossas vidas como costumavam ser. Sentimos falta de muitas das nossas velhas rotinas e do prazer que advém de muitas delas. Temos falta da confraternização com os nossos amigos, de ir tomar café, de almoçar fora e de estar perto uns dos outros. Faz-nos falta o convívio com os colegas de trabalho. É um luto colectivo que nos afecta a todos. Quando alguém perde um ente querido, os sentimentos de perda são agravados pela impossibilidade de poder abraçá-lo ou confortá-lo fisicamente ou mesmo de ir ao funeral. Já não podemos contar com os ombros dos nossos amigos para poder chorar. Lamentamos a perda do contacto humano e talvez nunca nos tivéssemos apercebido da importância que isso tinha para nós. Tomámos tanto por garantido.

É normal ficarmos transtornados com as perdas

De facto, é normal ficarmos transtornados. Afinal de contas, o nosso mundo foi virado do avesso. Perdemos o nosso sentido de segurança e protecção. Preocupamo-nos com os nossos filhos e com o impacto que isto terá sobre eles. Adiámos ou perdemos projectos, desfizeram-se sonhos. Sentimos falta das coisas que costumávamos fazer para nos distrairmos e aliviar o nosso stress, tais como ir ao ginásio, dançar, ir ao cinema, assistir a espetáculos, assistir ou participar em eventos desportivos. A lista é interminável. Entristecemo-nos com aspectos do nosso futuro que, aparentemente, mudaram para sempre. Perdemos tanto e é perfeitamente normal chorar o que perdemos. Podemos esperar encontrar alívio no futuro, mas as coisas já não voltam a ser como eram.

É normal que sintamos falta e lamentemos a perda destas partes das nossas vidas. Muitas destas actividades ajudaram a definir quem somos, como nos vemos a nós próprios, e como os outros nos vêem. O nosso luto certamente não atinge a magnitude do luto após uma morte, e consequentemente, muitos de nós recusamos reconhecer as nossas perdas não relacionadas com a morte.

Sentimo-nos culpados e envergonhados com este luto…

Sentimo-nos culpados, envergonhados, fracos ou constrangidos, porque a situação de outros é muito pior. De facto um dos maioires obstáculos para nos permitirmos chorar as nossas perdas actuais é a vergonha que muitas vezes se instala.

Eu, por exemplo, quando começo a sentir saudades dos velhos tempos, sinto-me muitas vezes mal com a minha própria ingratidão, sabendo que há outras pessoas a enfrentar problemas bem mais angustiantes, tais como perder um negócio, um emprego, ou o parceiro de uma vida. E, na verdade, a comparação do sofrimento nunca é útil e pode levar-nos a descartar as nossas próprias experiências. A investigadora da vulnerabilidade e vergonha Brené Brown expôs isto muito bem quando disse:

“(…) sem pensar, começamos a classificar o nosso sofrimento e a usá-lo para nos negarmos ou nos darmos permissão para sentir. (…) Mas não é assim que funciona a emoção ou o afecto. As emoções não desaparecem porque lhes enviamos uma mensagem de que estes sentimentos são inapropriados e não atingem níveis suficientemente elevados no quadro do sofrimento. (…) Todo o mito do sofrimento comparativo é a crença de que a empatia é finita. (…) É falso. Quando praticamos a empatia connosco próprios e com os outros, criamos mais empatia.”

É importante validarmos os nossos sentimentos de pesar

É importante termos presente que os nossos sentimentos são válidos. Podem ser diferentes dos outros, mas não há uma forma certa ou errada de sentir o que sentimos. Precisamos de nos darmos permissão para sentirmos tristeza e desgosto, até para que os nossos filhos sintam que o seu próprio sofirmento também é validado. Alguns de nós podem nem sequer ter consciencia de que o que têm estado a sentir é luto.

O luto pode afectar todas as áreas do nosso ser, não apenas os aspectos emocionais, mas também os físicos e espirituais. A primeira coisa que devemos fazer é reconhecer que as nossas perdas são reais e nos afectam. Depois precisamos de reconhecer os nossos sentimentos e falar sobre eles com alguém em quem possamos confiar e nos sintamos confortáveis. Por exemplo, um amigo ou membro da família que se encontre em circunstâncias semelhantes provavelmente compreenderá e relacionar-se-á com o que está a vivenciar.

Kessler escreve: “O luto de cada pessoa é tão único como a sua impressão digital. Mas o que todos têm em comum é que, independentemente da forma como sentem a dor, partilham a necessidade de que a sua dor seja testemunhada”.

O não reconhecimento do stress adicional associado à pandemia apresenta o risco de se culpar por algo que está fora do seu controlo. Quando o luto não é reconhecido, pode acabar por se acumular e sobrecarregar-nos num momento posterior. Não negue ou minimize o que está a experienciar, a fim de evitar o impacto de uma resposta de luto ainda mais intensa no futuro.

Se for caso disso, procure ajuda especializada.

 

Que aprendizagens nos trouxe a pandemia?

2 meses atrás · ·0 Comentários

Que aprendizagens nos trouxe a pandemia?

A COVID-19 impôs-nos  muitas mudanças e touxe-nos aprendizagens inesperadas. Ao longo dos últimos meses  temos vivido num estado de medo de um novo inimigo. Mas, afinal que aprendizagens é que a pandemia nos trouxe? O estilo de vida a que estávamos habituados e a forma como nos relacionamos foram alteradas, de maneira abrupta. Ensinou-nos a priorizar a vida, de modo a podermos lidar com esta ameaça, invisível a olho nu, que é representada como um símbolo de perigo na nossa mente.

A humanidade tem estado (e continua a estar) ameaçada por um virus que ataca, sorrateira e indiscriminadamente, afectando a forma como damos sentido, física e emocionalmente, ao mundo. Mas, conforme referi num artigo anterior, não baixámos os braços!

O que estamos realmente a aprender com esta pandemia?

Creio que todos nós aprendemos lições muito significativas com esta pandemia, para nós e para as gerações vindouras. Consideremos, por exemplo, a forma como os espaços comerciais se reinventaram rapidamente. Os comerciantes adaptaram-se de forma célere para acolher com segurança os nossos novos eus potencialmente contagiosos. Determinara a forma como fazemos compras em termos de quantidade, frequência e com quem. Graças aos sinais visíveis e à vigilância cortês, fizeram com que nos tornássemos conscientes de nós e dos outros, e de como cada um de nós ocupa o espaço agora, em comparação com a forma como o fazíamos antes.

Mas, o que aprendemos realmente com esta experiência? Como percebemos e lidámos com a situação? Vale a pena reflectir sobre dois aspectos: a resiliência que desenvolvemos, que é a capacidade de adaptação a situações adversas; e a conscientização de humanidade comum, somos todos partes do mesmo todo.

Viver com o vírus ensinou-nos a valorizar o trabalho muitas vezes invisível, porém essencial, daqueles que estão a trabalhar por nós e para nós  para que nada nos falte; a adquirir novas aptidões, forçando-nos a encontrar novas formas de trabalhar, de fazer compras, de aprender, de socializar, de rezar, de brincar e até mesmo de nos comportarmos e interagirmos uns com os outros.

Também nos ensinou que as crianças podem e devem ser incluidas nas tarefas domésticas, o que lhes traz um enorme senso de responsabilidade pelas suas acções; que muitas actividades, incluindo físicas, podem ser feitas em casa por via de meios digitais; ou que podemos reduzir as nossas deslocações, diminuindo assim o trânsito e a poluição.

Como estamos a lidar com a COVID-19 no pós-confinamento

Apesar de muitas mudanças e aprendizagens que podemos genuinamente considerar positivas, a nossa realidade mudou irremediavelmente. Segundo o Forum Nacional de Psicologia “os efeitos  da pandemia covid-19 serão múltiplos e profundos e as consequências para a saúde psicológica dos cidadãos ocuparão um lugar de destaque”. A verdade é que estamos agora a aprender a adaptar-nos ao distanciamento social em todas as áreas da vida,  perpetuando um medo persistente que ameaça sobreviver ao próprio vírus.

Quanto tempo vamos demorar a recuperar do distanciamento social em que temos vivido? Esta necessidade de salvar vidas que tem marcado as nossas mentes e os nossos corpos.

Será a nova normalidade vivermos num mundo onde os rostos estão escondidos da vista, os sentidos embotados por luvas de borracha e a possibilidade de contacto humano protegido por um vidro protector? Como é que os nossos corpos físicos irão lidar com isso? E como é que o nosso novo e frágil mundo – e mais higienizado – irá lidar com todos estes corpos?

Como vamos ultrapassar o medo de qualquer um de nós poder constituir uma ameaça?

Como vamos então lidar com a presença física de terceiros, quando formos encorajados a reconquistar os nossos espaços nos transportes públicos, nos escritórios em open space, em fábricas, estaleiros, aeroportos, salas de aula, salas de concertos e centros comerciais? À medida que a distância de segurança de dois metros se vai encutando lentamente, como vamos ultrapassar esta nova encarnação física do medo – o facto de qualquer um de nós, incluindo nós próprios, poder constituir uma ameaça?

A forma como  ocupamos (os nossos corpos) o espaço influencia directamente a forma como agimos e pensamos.

Apesar de tipicamente darmos primazia à mente sobre o corpo, é evidente que as lições aprendidas com  e através do corpo são duradouras. Basta pensarmos, por exemplo, no impacto social e psicológico duradouro da segregação dos espaços com base na raça ou na classe social.

A forma como utilizamos o espaço afecta-nos emocional, social, cultural e economicamente

A forma como utilizamos o espaço – a nossa proximidade, a nossa distância e as fronteiras que criamos entre nós – afecta-nos emocional, social, cultural e economicamente. Agora estamos a testemunhar a forma como os nossos corpos se ajustam e aprendem a lidar com um novo mundo moldado por uma pandemia.

O medo dos corpos dos outros não é inédito e a humanidade tem uma longa e lamentável história de separatismo e segregação ou de apontar alguns como mais assustadores ou perigosos do que outros, quer se trate de muçulmanos após o 11 de Setembro, de refugiados no processo de elaboração do referendo do Brexit ou da sistemática e contínua descriminação dos negros ou dos homosexuais.

O medo da COVID-19 pode tornar-se intrinsecamente visceral, firmemente enraizado na nossa memória física, tornando o nosso medo recém-adquirido uns dos outros ainda mais difícil de eliminar. Todavia, a natureza universal da COVID-19 torna os corpos praticamente indistinguíveis uns dos outros, tornando-nos a todos simultaneamente vulneráveis e perigosos. Este facto pode ser encorajador!

Renegociar o espaço pessoal será a nova normalidade?

A COVID-19 pode ser encarada como um grande nivelador, encorajando-nos a reconhecer a nossa própria vulnerabilidade e a vulnerabilidade dos outros, para que possamos combater o vírus como uma frente unida e igualitária. Já se perderam imensas vidas e continuam a perder-se, diariamente, em todo o mundo. Cada um de nós só estará a salvo quando todos estiverem a salvo. A nova forma de vida, pós-COVID-19, pode tornar-nos mais responsáveis e mais conscientes do impacto que as nossas acções (e os nossos corpos) têm sobre o ambiente, sobre a economia e uns sobre os outros, social, física e emocionalmente.

Quando começarmos realmente a libertar-nos dos nossos casulos de confinamento, a noção de um regresso à “normalidade” será simultaneamente uma impossibilidade e uma oportunidade perdida. Todos nós saímos perdedores e ganhadores desta pandemia. Mas as perdas são mais significativas para uns do que para outros.

Quem são os heróis deste marco na história da humanidade?

Quem entretanto perdeu os seus entes queridos, enfrenta agora um processo de luto marcado pela impossibilidade do último adeus. Algumas feridas que se criaram ao longo destes meses irão demorar a cicatrizar. Mas, sobreviver a uma pandemia global, tanto física como emocionalmente, é a cicatriz que devemos usar com orgulho, revelando a ferida que tanto nos curou como nos moldou.

Foram e continuam a ser inúmeros os que colocaram o bem-estar dos outros à frente do seu próprio bem-estar e até da sua saúde, física e mental. São muitos os heróis e heroínas que ficarão ligados a este marco na história da humanidade. Esta tem sido uma oportunidade única para todos, sem excepção, nos tornarmos melhores seres humanos. Mas acredito que os verdadeiros ícones serão aqueles que conseguirem ressignificar as suas experiências dolorosas e crescer a partir delas, dando um novo sentido à sua vida!

Gostaria muito de saber qual a tua opinião sobre este tema.

Deixa o teu comentário abaixo.

O que vai emergir da pandemia

3 meses atrás · ·0 Comentários

O que vai emergir da pandemia

Um simples virus foi quanto bastou para interromper uma normalidade viciada. Uma paragem forçada que veio expor as fragilidades de pessoas, famílias, organizações e das sociedades actuais, em geral. A inaptidão para lidar com o inesperado tornou-se visível em alguns países! Também se tornou claro que há uma dificuldade generalizada para lidar com o stress, a ansiedade e a solidão e que não existem redes de apoio suficientes para acudir a essas situações. E, uma vez mais, algumas redes de trabalho voluntário foram chamadas a dar 500%, porque os meios para lidar com estas questões são claramente insuficientes. Então, o que vai emergir da pandemia?

O isolamento social, tão necessário para nossa autopreservação, para protecção dos nossos entes queridos, e por respeito a quem está na linha da frente, para que nada nos falte (conforme referi no último artigo, “Não podemos baixar os braços“), nem sempre é encarado da forma mais positiva.

Quando uma crise se instala podemos entrar rapidamente em colapso

Quando uma crise se instala, se não houver estruturas sólidas ou planos de contingência, podemos rapidamente entrar em colapso. Mas podemos sentir-nos novamente gratos pelo voluntarismo de muitas pessoas que, apesar das suas dificuldades pessoais (porventura, financeiras porque a nossa economia é sustentada por prestadores de serviços e, portanto, sem um salário fixo), foram as primeiras a reagir positivamente e a disponibilizar, gratuitamente, todo o tipo de serviços e apoios nas redes sociais. Desde sessões terapêuticas, meditação, exercício físico, actividades lúdicas para as crianças, formação específica nas mais variadas àreas de conhecimento, etc., têm sido inscansáveis.

Certamente já todos viram as inúmeras mensagens que circulam nas redes sociais e nos meios de comunicação sobre como é fantástico ver o mundo solidário contra a Covid-19. Mas, o que vai surgir quando terminar o isolamento social? Se por um lado, isto nos dá esperança de que seja possível fazer mudanças profundas e nos inspira e motiva porque nos sentimos unidos num propósito, numa missão e numa visão, por outro há uma certa realidade escondida na qual, em geral, não pensamos. Esquecemos que há outras realidades que não estão a ser mostradas nas redes sociais porque estamos em modo de confinamento. Refiro-me aos sem-abrigo, às vítimas de violência doméstica, à fome escondida, que deixaram de estar visíveis graças à pandemia.

Por momentos acreditei que a interdependência humana seria reconhecida e honrada. Como dizia Einstein, “Nenhum dos problemas do mundo é tecnicamente difícil de resolver; eles têm origem no desacordo humano”.

O que está realmente a motivar os “decisores” políticos e económicos é uma história diferente

No entanto, quando olhamos para o que está realmente a motivar os “decisores” políticos e económicos nos dias de hoje, emerge uma história diferente.

Em vez de serem impulsionados por um desejo de bem comum, a partir de um lugar de motivação interna, de doação natural, de coração aberto, estamos a ver o ressurgimento acelerado de tendências pré-existentes, políticas, económicas e sociais… Basta olharmos para a polémica que se gerou em torno da celebração do 25 de Abril, ou prestarmos atenção às notícias acerca do aproveitamente que algumas organizações estão execer em vários quadrantes da economia. Mais uma vez, as futilidades se sobrepõem ao essencial.

Afinal, o que está a emergir da consciência colectiva? Queremos continuar a perpetuar sistemas de dominação e controlo, que obscurecem e tornam redutoras as questões mais profundas da vida humana, que precisamos de analisar e transformar?

O que vai emergir quando for possível voltar à normalidade?

Quando for possível voltar às nossas rotinas teremos tido a oportunidade para nos perguntarmos se queremos mesmo voltar a essa normalidade. O que vai emergir desta situação? A minha esperança mais profunda é que, durante este tempo, tenhamos visto o que queremos mesmo levar para o futuro. Será que os estilos de vida que tínhamos são dignos de continuidade, ou teremos aprendido algo muito mais significativo com esta experiência? Os nossos valores mantêm-se inalterados ou sentimos necessidade de fazer uma reordenação na sua escala? O que ganhámos? E o que perdemos? Teremos percebido aquilo em que vale a pena continuar a investir tempo, recursos e energia? Que legado queremos deixar às gerações vindouras? Que tipo de pessoas, de organizações, de sociedade, de país queremos ser?

O sentido da vida não pode continuar a ser adiado. Esta pode ter sido uma das derradeiras oportunidades que nos foi dada, enquante espécie, para construirmos novas sociedades, mais holísticas para que possamos retomar o caminho de reencontro com o essencial, com o humanismo perdido nas teias do consumismo.

Temos um manancial de oportunidades de contribuir para uma nova normalidade

Agora, mais do que nunca, precisamos de nos examinarmos a nós próprios, de nos questionarmos se queremos continuar a mover-nos pelo medo ou em piloto automático. Queremos continuar a manter padrões de comportamento de ataque ou fuga, ou pelo contrário, estamos dispostos a entrar em contacto com a nossa natureza compassiva e generosa e a trabalhar com ponderação para criarmos sistemas de vida conectados e humanizadores, que sirvam verdadeiramente a vida de todos os seres que habitam no nosso planeta?  Como sempre, temos um manancial de oportunidades para contribuir para uma nova normalidade através do nosso próximo passo, da nossa próxima acção, da nossa próxima escolha, da nossa atitude, da nossa relação com os nossos medos e da nossa relação com os outros e com o mundo.

Creio que não podemos continuar a viver as nossas vidas, e a nos relacionarmos, connosco ou com os outros, a partir de uma posição de vítima ou de agressor/opressor.

Precisamos de desenvolver o hábito de nos relacionarmos connosco próprios e com os outros a partir da vulnerabilidade, da empatia, da compaixão, da humanidade partilhada e da interdependência. Acredito que o caminho para vivermos vidas mais plenas e gratificantes, para sermos realmente felizes será por aí.

Gostaria muito de saber qual é a sua opinião.

O que ressoou consigo?

Que questões adicionais lhe surgiram?

Ou se vê isto de forma diferente?

Que mais poderia acrescentar à discussão?

Viver em expansão ou em contenção?

2 anos atrás · ·4 comentários

Viver em expansão ou em contenção?

Actualmente, muitos falam sobre evolução espiritual e orgulham-se em se afirmarem como seres humanos evoluídos espiritualmente. Outros perguntam-se o que significa “evolução espiritual”. Na verdade, eu própria costumava colocava-me frequentemente essa questão (e às vezes ainda coloco). Arrisco-me a partilhar convosco algumas das minhas ideias após muita reflexão e introspecção: Evolução espiritual significa calar a mente de modo a não sentirmos, pensarmos e agirmos negativamente e, em vez disso, sentirmos, pensarmos e agirmos com fé, amor e compaixão. Isso permite-nos viver em expansão em vez de contenção.

As duas emoções primordiais são o amor e o medo e uma opõe-se à outra.

A Negatividade é essencialmente medo e, normalmente, o pessimismo funciona como um programa de computador do subconsciente, de cuja presença (e do seu poder sobre nós) não temos realmente consciência.

A Negatividade actua em nós sob a forma da auto-sabotagem e é a razão pela qual poucas pessoas vivem os seus sonhos. Ela manifesta-se como a máscara da prudência dizendo-nos para protegermos o nosso coração e as nossas ambições, porque se nos abrirmos ao amor, ou procurarmos alcançar os nossos sonhos, iremos fracassar, e esse fracasso será devastador.

O ladrão de sonhos não se limita a sabotar as nossas ambições inatas.

Portanto, jogamos pelo seguro e, para a maioria de nós, isso significa focar-se apenas na acumulação material e na individualidade, no ter em vez do ser, o que realmente significa abdicar do amor e desperdiçar a vida com objectivos menores.

Este ladrão de sonhos não se limita a sabotar as nossas ambições inatas. Também afecta o grau em que estamos dispostos a amar, que é o maior e pior risco de todos. Quanto mais forte for a racionalidade na sua vida, mais retém o seu coração e mais os seus relacionamentos são definidos pela autoprotecção e pelo medo. Compreensivelmente, a autoprotecção tende a deixar-nos isolados, com medo e com raiva, porque ela quase garante que não cumpriremos os nossos desejos mais profundos, nem experienciaremos o tipo de amor pelo qual ansiamos.

O antídoto para os medos autocriados

A confiança baseia-se na crença (na verdade, na convicção crescente) de que somos divinamente amados, guiados e protegidos – a Fonte ou Universo – e que somos constantemente auxiliados nos nossos esforços para alcançar a felicidade, satisfação e amor. é termos o sentimento de que somos capazes de nos adaptar às mudanças nas circunstâncias, e sim, teremos que aprender novas formas de fazer as coisas no processo de criar e perseguir os nossos sonhos, mas que seremos bem-sucedidos, porque somos apoiados pelo Universo – Deus.

A fé diz-nos que qualquer que seja o desafio que enfrentemos, existe sempre uma solução, e que algures se abrirá uma porta, por trás da qual estará a resposta. A nossa função é manter as portas abertas. O preço da fé é simples: devemos entregar-nos de coração, e esforçar-nos com sinceridade, em tudo o que fazemos, acreditando sempre que no final triunfaremos.

O optimismo nasce do alinhamento com os desejas da alma

O optimismo baseia-se no conhecimento de que os nossos objectivos, ambições e sonhos são inerentemente bons e que, em última análise, podem ser alinhados com um bem maior, desde que os persigamos de coração aberto.

A nossa alma deseja que compreendamos que podemos querer conquistar algo para nós mesmos – alcançar o sucesso profissional, por exemplo – mas, à medida que evoluirmos, cresceremos naturalmente em direcção a uma ambição ainda maior, que é colocar o nosso sucesso ao serviço dos outros. Ou seja, o sucesso pessoal só tem sentido se servir um bem maior. A fé é como uma árvore que plantamos. Começamos por nos preocuparmos com nós mesmos, mas à medida que crescemos, os seus ramos abrem-se cada vez mais, desejando que o sonho da paz pessoal leve à paz mundial.

O sucesso que não serve um bem maior, é mera satisfação do Ego.

Fundamentalmente, quem vive em função dos desejos egóicos, acredita que o Universo é hostil e que, portanto, deve se proteger com a falsa segurança do dinheiro, da fama e do poder. Infelizmente, isso leva inevitavelmente à ganância e ao egoísmo, porque a riqueza, por maior que seja, não nos pode fazer sentir seguros o suficiente ou felizes nos nossos corações. E, por maiores que sejam as riquezas acumuladas, acabam por ter pouco significado quando, no final da vida, se acorda para a realidade triste, solitária e sombria.

Inversamente, quem tem fé, acredita que o Universo – a Fonte do amor incondicional – é o provedor  supremo de todas as nossas necessidades, tanto temporais quanto espirituais. Na prática, acredita-se que ninguém obtém sucesso a menos que viva ou actue de acordo com os desejos do seu coração, isto é, com fé. Quanto maior a fé, maior o sucesso e, em última análise, maior a realização, plenitude e reunião com o amor.

O pessimismo desencadeia a liberação de hormonas do stress

É importante perceber que as duas vertentes têm efeitos drasticamente diferentes no nosso corpo físico e saúde em geral. O pessimismo activa o sistema nervoso simpático, que desencadeia a liberação de hormonas do stress e ondas de oxidação que levam ao  envelhecimento rápido e a doenças. A esperança activa o sistema nervoso parassimpático e o nervo vago, que juntos produzem cascatas eletromagnéticas, hormonais e bioquímicas que criam sensações de bem-estar, optimismo, segurança e cura.

Em última análise, o Negativismo leva à infelicidade, à amargura e à doença, em parte porque aqueles que insistem na negatividade agem de maneira a satisfazem as expectativas do pessimismo. O que significa que o Egocentrismo leva ao trágico caminho da solidão. A fé leva, em última análise, à Fonte do amor incondicional e à reconciliação entre individualidade e Unidade.

Fluxo ou contenção?

Acredito que todos nós bebemos da mesma Fonte e partilhamos o mesmo Espírito, que existe uma unidade que está além da individualidade, ego e mente.

É possível que a Alma seja uma manifestação individual do Espírito e, se for esse  o caso a nossa alma vive num oceano ilimitado de amor incondicional e alegria, poder e possibilidades que é a natureza da Fonte. Se tudo isto for remotamente verdade, então a alma é uma espécie de rio que liga a nossa vida individual ao amor incondicional e poder ilimitado da Fonte.

Metaforicamente falando, se pensarmos na nossa individualidade como um lago, na Fonte como um oceano infinito,  e que a nossa alma é como um rio mágico, repleto das mesmas qualidades da Fonte Oceânica – amor infinito, alegria, sabedoria, energia e vida – que estabelece a ligação entre o lago e o oceano, a maioria de nós tem uma comporta entre o lago e o rio, que limita o fluxo a um fio de água.

De vez em quando, especialmente quando precisamos desesperadamente de ajuda, conseguimos abrir um pouco a represa, o que permite que a alma penetre no lago da nossa individualidade. Nesses momentos, bebemos do rio da alma e, de repente, conhecemos pessoas importantes que contribuem com algo essencial para as nossas vidas, ou vivenciamos eventos sincrónicos que mudam as nossas vidas para sempre.

O problema é a barragem – o nosso Ego.

O Ego quer que acreditemos que não existe fonte nem alma e que, se existe, não tem qualquer relevância para as nossas vidas. A represa da nossa mente Egóica consegue convencer-nos porque ela é limitadora e implacável e, para muitos de nós, intelectualmente convincente.

Acredito que a Fonte está sempre presente, a fluir através da nossa alma, e a oferece-nos tudo o que precisamos para sermos felizes e realizados. Só depende de nós, das nossas escolhas, manter o fluxo constante ou fechar a represa.

Feito com ♥ por Ana Paula Vieira
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