Mulher a reconstruir a identidade depois de uma perda profunda

Depois do luto de nós mesmas: como reconstruir a identidade

Mulher a reconstruir a identidade depois de uma perda profunda

Reconstruir a nossa identidade depois de uma perda não significa voltarmos a ser quem éramos. Há experiências que nos mudam de tal forma que o caminho já não passa por recuperar uma versão anterior de nós mesmas, mas por descobrir quem estamos a tornar-nos depois de tudo o que vivemos.

Há perdas que mudam definitivamente quem somos

Uma experiência emocionalmente avassaladora ou traumática pode abalar profundamente a forma como nos vemos e como compreendemos a nossa própria vida. Não se trata apenas da perda de alguém que amamos. Podemos também perder papéis, expectativas, projectos de futuro e partes importantes da identidade que construímos até então.

Alguns anos após a morte do meu filho, a minha irmã disse-me um dia que tinha saudades de me ver sorrir. A observação surpreendeu-me. Não percebia o que ela queria dizer. Eu sorria.

Ela respondeu-me:

“Sim, sorris, mas é um sorriso triste. Os teus olhos perderam o brilho. Estão sempre tristes.”

Talvez haja perdas que façam isso connosco. Não nos retiram necessariamente a capacidade de continuar a fazer o que é preciso, de conversar, de trabalhar ou até de sorrir. Mas deixam marcas tão profundas que parte de nós muda definitivamente. E, por vezes, quem nos ama consegue ver essa mudança antes de nós mesmas.

A pressão para voltar a ser quem éramos

Infelizmente, vivemos numa sociedade que nos exige produtividade máxima e nos pede o regresso rápido à normalidade. E, por vezes, sob essa pressão tentamos recuperar a pessoa que éramos antes.

Porém, por mais duro e difícil que seja de aceitar, após uma grande perda não há regresso. Não podemos voltar atrás no tempo e ser a pessoa que éramos antes. A experiência vivida transformou-nos.

Portanto, depois de certas perdas, talvez o problema não seja não conseguirmos voltar. Talvez seja tentar nadar contra a corrente. Insistirmos em regressar a uma versão de nós que já não existe.

Aceitar que a mudança é irreversível pode ajudar-nos a parar de lutar contra o que é e começar a construir o que pode ser.

O espaço entre quem fomos e quem ainda não sabemos ser

Quando a antiga identidade se desfaz e a nova ainda não se formou, surge uma sensação de estranheza. Um vazio por já não nos reconhecermos totalmente, mas ainda não sabermos quem estamos a tornar-nos.

Em processos de luto particularmente intensos ou prolongados, a pessoa pode sentir-se perdida, sem um mapa para navegar na sua própria vida. Debate-se com o desconforto de não saber quem é sem aquilo que perdeu.

Por vezes, é como se a história que contávamos sobre nós mesmas deixasse subitamente de fazer sentido. É um espaço desconfortável, sim, mas também pode tornar-se um portal para novas possibilidades. Pois é no silêncio desse vazio que as sementes de uma nova história podem começar a germinar.

Reconstruir não é começar do zero

Reconstruir a identidade não é apagar tudo o que fomos e vivemos nem fingir que aquilo que se partiu pode regressar ao estado anterior.

É reconhecer o que experienciámos e as marcas que ficaram. É integrar as perdas na nossa história, abandonar papéis que já não servem, recuperar partes de nós esquecidas, reorganizar prioridades e, por vezes, descobrir possibilidades que antes não conseguíamos ver.

Em algumas pessoas, este processo pode também trazer mudanças que a psicologia associa ao crescimento pós-traumático: uma nova percepção de si, das relações, das prioridades ou do sentido da vida. Mas crescer depois de uma experiência traumática não é uma obrigação, nem transforma o sofrimento numa coisa boa.

Talvez reconstruir a nossa identidade comece, muito simplesmente, quando aprendemos a não voltar a abandonar-nos.

Não voltar a ser quem éramos não significa ficarmos prisioneiras do passado

A identidade que vamos reconstruindo não apaga o passado, mas pode mudar a maneira como encaramos a vida.

Vários anos depois, a traição e o abandono do meu marido voltaram a abalar profundamente a minha vida. Voltei a cair, mas desta vez, de uma forma que nunca imaginei ser possível. Bati no fundo com pompa e circunstância e só consegui reerguer-me com muita ajuda.

E, ainda assim, aconteceu algo que eu também não esperava.

À medida que comecei a aproximar-me novamente de mim e a reconstruir a minha identidade, o meu sorriso voltou. Mais do que isso: recuperei a alegria de viver.

E, uma vez mais, foi a minha irmã que se deu conta disso antes de mim.

Recuperar a alegria pode parecer um luxo inatingível quando estamos no meio do processo de luto e reconstrução. E, no entanto, por vezes ela regressa lentamente, quase sem darmos conta.

Não voltei a ser quem era.

E talvez essa seja uma das verdades mais difíceis de aceitar depois de uma experiência emocionalmente avassaladora: há coisas que nos mudam de tal forma que regressar à pessoa que éramos antes deixa simplesmente de ser possível.

Mas hoje sei também outra coisa: não voltar a ser quem éramos não significa ficarmos prisioneiras do passado.

Reconstruir a identidade é recuperar autoria

Reconstruir a identidade não é recuperar o controlo sobre o que nos acontece. É recuperar a capacidade de participar, conscientemente, na forma como queremos viver depois do que aconteceu.

Não se trata de esquecer a dor, nem de encontrar uma razão para tudo o que aconteceu. Trata-se de encontrar uma forma de integrar essa experiência na nossa história sem permitir que ela defina tudo o que somos.

A mulher que sou continua a integrar perdas diferentes, a reconhecer as marcas que deixaram e a sarar as suas feridas de forma amorosa e sem pressas. Não é uma versão intacta de mim. Nem pretende ser.

Mas é uma mulher que recuperou a sua soberania. Que aprendeu a não deixar que a dor escreva, sozinha, os próximos capítulos da sua história.

E, talvez por isso, tornou-se também uma companhia mais presente, mais inteira, mais empática e mais compassiva para quem está a sofrer.

Algo que fez a diferença no meu processo foram as perguntas certas, quer as que me fiz, quer as que me fizeram. Perguntas como:

O que já não consigo ignorar sobre mim?
Que partes minhas quero recuperar?
O que aprendi a não tolerar?

Que forças descobri em mim que não sabia que tinha?
Que valores quero que orientem a próxima fase da minha vida?
Quem estou a tornar-me quando deixo de organizar a minha identidade em torno do que perdi?

As respostas ajudaram-me a confiar na minha intuição para tomar decisões alinhadas com aquilo que passou a ser importante para mim, recuperar a minha soberania e estabelecer limites saudáveis.

As perguntas certas podem ajudar-nos a traçar o nosso próprio caminho, um passo de cada vez, mesmo quando ainda não sabemos para onde vamos.

Não precisamos de ter pressa

A reconstrução não é um projecto com prazo definido. É um processo dinâmico e individual, e cada pessoa tem o seu próprio ritmo. Haverá dias em que podemos sentir-nos mais fortes e outros em que a dor parece insuportável. Dias em que nos parece que avançámos muito e outros em que nos sentimos a retroceder. Mas sentirmos que voltámos atrás não significa necessariamente que nos perdemos no caminho. A reconstrução raramente é linear.

Não precisamos de transformar a dor rapidamente em crescimento para sarar. O mais importante é não ceder a pressões externas ou internas para “dar a volta”. Podemos sarar de forma amorosa, sem pressas e sem voltar a abandonar-nos. A paciência e a autocompaixão podem fazer uma enorme diferença neste processo.

Conclusão: talvez reconstruirmo-nos seja aprendermos a ficar do nosso lado

Reconstruirmo-nos não significa recuperar intacta a mulher que éramos, nem apagar tudo o que vivemos. Talvez signifique reconhecer que a perda e o trauma fazem parte da nossa história sem permitir que definam tudo o que somos. E, com essa consciência, voltar a ser protagonistas da nossa própria história.

Não ficamos intactas.

Já não somos quem éramos.
Mas podemos tornar-nos uma presença mais inteira, empática e compassiva, para nós e para quem sofre, sem nos abandonarmos.

Talvez reconstruir a nossa identidade não seja voltar a encontrar a mulher que fomos. Talvez seja aprender a acompanhar, com mais presença e compaixão, a mulher que estamos a tornar-nos.

Se estas palavras encontraram eco em ti, talvez também te faça sentido ouvir o episódio sobre o luto de nós mesmas, aquele que sentimos quando já não reconhecemos a pessoa que éramos antes de uma perda.

E, se conheces uma mulher que está a tentar reencontrar-se depois de uma experiência que a mudou profundamente, partilha este artigo com ela. Por vezes, saber que não somos as únicas a sentir-nos assim já pode fazer diferença.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.