Mulher em momento de introspecção, representando o luto de nós mesmas após um grande abalo de vida

O Luto de Nós Mesmas: Quando Já Não Reconhecemos Quem Éramos

Mulher em momento de introspecção, representando o luto de nós mesmas após um grande abalo de vida

Há perdas que não nos tiram apenas alguém, uma relação, saúde ou um sonho. Há perdas que levam parte de nós também. Que nos deixam sem saber quem somos. De luto por quem éramos.

Depois de um grande abalo de vida, tudo pode estar igual por fora, mas por dentro parece diferente. Continuamos a acordar, a realizar rotinas, a cumprir obrigações, a responder a solicitações. Mas, interiormente, interrogamo-nos:

“Quem sou eu, agora?”

Este é um dos lutos invisíveis mais complexos e, talvez, menos compreendidos: o luto pela pessoa que nós éramos antes da vida nos virar do avesso.

Na psicologia, existe um conceito que explica isto: ruptura biográfica. Quando um acontecimento é de tal forma marcante que divide a nossa vida em dois tempos: um “antes” e um “depois” distintos.

A vida continua, mas já não nos reconhecemos

Não estamos a falar de um simples revés, mas de um sismo de vida que abala as nossas crenças sobre a vida, o mundo e mina a nossa confiança, nos outros e em nós mesmas. De repente, a pessoa que éramos, com as suas certezas, a sua confiança e a sua visão do mundo, parece já não existir. Olhamo-nos ao espelho e já não nos reconhecemos.

Aparentemente, o mundo continua igual, mas por dentro há caos, incerteza, vazio e dor. Lamentamos não apenas o que ou quem perdemos, mas também a pessoa que deixámos de ser. Sentimo-nos estranhas na nossa própria pele.

Quando a ilusão se desfaz

Antes do abalo, vivíamos sob a protecção de um manto de crenças e pressupostos. Acreditávamos que o mundo era, no geral, um lugar seguro e benevolente e que as pessoas eram boas e confiáveis.

Estas crenças, muitas vezes inconscientes, davam-nos uma sensação de segurança e previsibilidade, permitindo-nos navegar pela vida com uma certa tranquilidade. Mas quando acontece algo traumático, essa ilusão desfaz-se. De repente, o mundo parece ameaçador, imprevisível e cheio de perigos. A nossa capacidade de confiar, tanto nos outros como na própria vida, é profundamente abalada. É como se o manto se rasgasse e nos revelasse uma realidade mais dura do que alguma vez imaginámos.

Quando o mundo deixa de fazer sentido

Outra suposição fundamental que o trauma desfaz é a de que a vida é previsível e justa. Que somos recompensados pelas nossas boas acções e punidos pelas más. Contudo, quando a tragédia nos atinge e a dor parece não ter lógica nem propósito, essa crença é posta em causa. Começamos a questionar o sentido de tudo, a sentir que fomos vítimas de um universo indiferente, ou que conspira contra nós. Esta desorientação pode ser tão paralisante quanto a própria perda, pois rouba-nos a bússola interna que nos guiava.

Não perdemos apenas pessoas ou circunstâncias

Também nos víamos como pessoas dignas, valiosas, moralmente correctas e capazes de exercer algum controlo sobre o nosso próprio destino. Mas quando ocorre uma tragédia, ou algo doloroso e inesperado, a vida que conhecíamos desfaz-se, levando consigo parte do que acreditávamos ser. Não é apenas a perda de um ente querido, de um emprego, de saúde, de uma relação ou de um sonho. É a perda da vida que existia antes do evento, da identidade que construímos e do futuro que imaginámos.

O que é o luto de nós mesmos

Por vezes, o que mais dói não é o evento traumático em si, mas assistir, sem saber o que fazer, ao desmoronar silencioso da nossa identidade. Temos de fazer o luto das nossas rotinas, de papeis que deixaram de estar disponíveis para nós, de lugares de pertença. Esta sensação de já não sabermos quem somos é uma experiência avassaladora.

É como se tivéssemos de dizer adeus a partes de nós que se foram e talvez não voltem da mesma forma. Nesse processo, o corpo tenta manter a vida numa realidade que a mente ainda não consegue enquadrar. Isso deixa-nos com uma sensação de vazio e de estranheza, como se estivéssemos a habitar um corpo que já não nos pertence.

Este luto de identidade é complexo e, com frequência, solitário, pois não tem rituais sociais, nem é facilmente compreendido pelos outros. Esta invisibilidade e falta de validação faz com que o mundo pareça um lugar ainda mais hostil.

Não voltar ao que éramos não significa que a dor venceu

Face à falta de validação e exigências da sociedade, a primeira reacção é tentar “voltar ao normal”. Queremos voltar às nossas rotinas, fazer o que é preciso e ser produtivas. E isso gera mais frustração e dor pois, por vezes, nem percebemos que estamos a viver um luto. Por outro lado, a resiliência emocional, se entendida apenas como a capacidade de “aguentar” ou “voltar rapidamente ao normal”, pode ser insuficiente.

Recuperar não significa “aguentar” nem voltar atrás, pois algumas experiências transformam-nos. Significa aprender a construir algo novo, sem pressa, com gentileza, autocompaixão, e coragem para aceitar a vulnerabilidade como a nova pele da sua integridade. É ir além da dor e reconhecer quem estamos a tornar-nos, sem apagar quem fomos e sem permitir que a dor decida quem seremos.

O que a sua nova versão pode construir?

Permita-se viver este luto, honre a pessoa que foi, sem se obrigar a ser quem era. Talvez ainda não saiba exactamente quem está a tornar-se, e está tudo bem. A reconstrução começa muitas vezes assim: com pequenos passos, alguma incerteza e uma nova forma de escutar a vida de dentro para fora. Que pequeno passo pode dar hoje para se aproximar da pessoa que está a nascer deste novo capítulo?

 

FAQ’s

  • O que é o luto de nós mesmas?
    É o processo emocional que vivemos quando, depois de uma perda ou grande abalo de vida, sentimos que já não reconhecemos a pessoa que éramos antes.
  • É normal sentir que perdi a minha identidade depois de uma perda?
    Sim. Perdas significativas podem abalar a forma como nos vemos, a confiança na vida e o sentido de futuro.
  • Recuperar significa voltar a ser quem eu era?
    Não necessariamente. Muitas vezes, recuperar significa integrar o que aconteceu e construir uma nova forma de estar na vida.

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