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Vitimização e Manipulação – São coisas distintas ou subsistem juntas?

4 meses atrás · · 2 comentários

Vitimização e Manipulação – São coisas distintas ou subsistem juntas?

Todos nós, provavelmente, em algum momento da nossa vida, já nos sentimos vítimas. Face a circunstâncias difíceis das nossas vidas em que tivemos de enfrentar experiências dolorosas ou traumáticas, certamente nos sentimos vulneráveis e frágeis, desejosos de cuidado e protecção.

Neste tipo de situações em que existe uma condição objectiva de vitimização, a vítima requer atenção, cuidado, apoio e carinho.  Todavia esta é uma condição passageira, muito diferente daquela em que a pessoa passa a ostentar a condição de vítima como algo definitivo. A isto se chama cultura da Vitimização e da Manipulação emocional.

Comecemos pela Vitimização!

A vitimização ocorre quando o acontecimento traumático se converte em identidade própria da pessoa que o experienciou.  Ao descobrirem que, sendo vítimas, beneficiam do cuidado e atenção permanente dos outros, as pessoas com tendência para a vitimização, entram num ciclo vicioso de chamada de atenção. A vitimização, só por si, não é uma patologia classificada no DSM-5, embora indicie a possibilidade do desenvolvimento de um transtorno paranóico de personalidade.

As pessoas com propensão à vitimização acreditam que tudo que lhes acontece é culpa dos outros ou das circunstâncias. O seu locus de controlo é externo, ou seja, a pessoa não assume a responsabilidade pelas suas próprias acções. Pelo contrário, transfere-a para factores externos, alheios a si própria.

A vitimização é uma estratégia benéfica para quem assume a condição de vítima

A vitimização é, em muitas situações, uma estratégia extremamente benéfica para a pessoa que assume a condição de vítima, porque lhe permite obter privilégios que de outra forma não conseguiria alcançar. A pessoa acaba por contar, de uma forma ou de outra, com a compaixão e a compreensão das outras pessoas, independentemente do que faça.

Com efeito, quem coloque em causa os comportamentos e as acções das supostas vítimas, arrisca-se a ser apontado como desumano ou insensível. Este aspecto abre espaço para uma espécie de permissividade e imunidade, dando total cobertura a tudo o que a vítima diz ou faz, sem questionar. Todavia, a vitimização calculada, seja ela consciente ou inconsciente, encobre uma espécie de chantagem emocional.

A manipulação é uma estratégia da pessoa propensa à vitimização

A manipulação é uma estratégia desenvolvida pela pessoa com propensão para a vitimização, no sentido de ver satisfeitas as suas necessidades de atenção. O manipulador emocional usa a sua condição de vítima para impor os seus desejos e caprichos. O manipulador age de forma a que o outro se sinta culpado e faça tudo o que ele deseja. Esse é o grande problema da manipulação. Por ser um comportamento velado, as pessoas que são manipuladas nem sempre se apercebem do que está realmente a acontecer e acabam por ser iludidas permitindo que os manipuladores façam o que querem.

O manipulador usa a chantagem como forma de comunicação

O manipulador usa a chantagem emocional como forma de comunicação. Quando as outras pessoas não fazem o que ele desejacoloca-as no papel de carrascos, reclamando para si mesmos o papel de vítima. Essa atitude provoca sentimentos de culpa nos outros que tudo farão para corrigir o dano causado, mesmo que tenham de abdicar de si mesmos.

A pessoa manipuladora com tendência à vitimização é capaz de fazer grandes sacrifícios pelos outros, sem que ninguém lhe peça nada, colocando-se assim no papel de vítima da vida. Quando alguém apresenta este tipo de comportamento, estamos perante uma pessoa com baixa auto-estima que só se sente válida quando se sacrifica em prol dos outros.

Nestes casos, trata-se de alguém que não fechou o ciclo de uma experiência traumática ou que perdeu o gosto pela vida. Estas pessoas precisam de apoio urgente. Necessitam de alguém que as compreenda, que seja emocionalmente competente, que lhes mostre compaixão e as ajude a lidar com o seu trauma e a desenvolver maturidade emocional, para mudarem de atitude.

Em conclusão: a cultura da vitimização e da manipulação leva-nos a renunciar aos nossos próprios desejos e necessidades em prol dos outros. Este tipo de comportamento é comum em pessoas emocionalmente imaturas ou com baixo QE. Assim, é importante que estejamos conscientes destes padrões de comportamento, não só para nos protegermos, mas também para ajudarmos a promover a mudança na pessoa que assume o papel de vítima e/ou manipuladora.

Autoconsciência – o que é e o que a torna importante

8 meses atrás · · 0 Comentários

Autoconsciência – o que é e o que a torna importante

O interesse pelo tema da auto-conscientização remonta à Grécia antiga, expresso no famoso aforismo “conhece a ti mesmo”, uma das máximas de Delfos inscrita no pronau (pátio) do Templo de Apolo. No último século, a psicologia ocidental voltou a interessar-se pelo tema da autoconsciência, o qual tem sido extensivamente estudado por filósofos e psicólogos.

Neste artigo, irei abordar o que é a autoconsciência, em que medida ela pode ser benéfica numa uma sessão de terapia, por que é difícil alcançá-la e como é possível cultivá-la.

Definição de auto-conscientização

Enquanto a conscientização é saber o que está a acontecer à nossa volta, a autoconsciência é saber o que estamos a vivenciar. Por outras palavras, a autoconsciência é uma consciência do self, sendo o eu o que torna a identidade única. Esses aspectos únicos incluem pensamentos, experiências e habilidades.

Os psicólogos Shelley Duval e Robert Wicklund desenvolveram a teoria da autoconsciência em 1972. Segundo eles:

“Quando focamos a nossa atenção em nós mesmos, avaliamos e comparamos o nosso comportamento actual com os nossos padrões e valores internos. Nós tornamo-nos autoconscientes e avaliadores objectivos de nós mesmos”.

Em essência, eles consideram a autoconsciência um importante mecanismo de auto-rgulação.

A autoconsciência é a capacidade de saber o que estamos a fazer, quando estamos a fazê-lo e entender por que o estamos a fazer.

O psicólogo Daniel Goleman, no seu best-seller “Inteligência Emocional”, propôs uma definição de autoconsciência: “conhecer os estados internos, preferências, recursos e intuições”.

Essa definição coloca mais ênfase na capacidade de monitorar o nosso mundo interior, os nossos pensamentos e emoções à medida que eles surgem.

Para que nos serve a autoconsciência?

A autoconsciência é a base para a inteligência emocional, a auto-regulação e a maturidade emocional.

A capacidade de monitorar as nossas emoções e pensamentos a cada momento é fundamental para nos compreendermos melhor, estar em paz com quem somos e gerir proactivamente os nossos pensamentos, emoções e comportamentos.

É importante reconhecer que a autoconsciência não se limita ao que percebemos sobre nós mesmos, mas também sobre como percebemos e monitoramos o nosso mundo interior.

A autoconsciência vai muito além do acumular de conhecimento sobre nós mesmos: trata-se também de prestar atenção ao nosso estado interior com uma mente de principiante e um coração aberto.

À medida que percebemos o que está a acontecer dentro de nós, podemos reconhecê-lo e aceitá-lo como parte integrante do ser humano, em vez de nos incomodarmos com isso. Assim, desenvolvemos agilidade emocional.

A autoconsciência é importante?

Segundo Daniel Goleman, a autoconsciência é a pedra basilar da inteligência emocional.

As pessoas autoconscientes tendem a agir conscientemente (em vez de reagir passivamente), e tendem a ter boa saúde psicológica e a ter uma visão positiva da vida. Elas também têm uma maior profundidade de experiência de vida e são mais propensas a ser compassivas.

Um estudo desenvolvido por Sutton (2016) sobre os benefícios da autoconsciência, concluiu que aspectos da autoconsciência como a auto-reflexão, introspecção e atenção plena podem levar a benefícios como mais receptividade e conexão, enquanto os aspectos de ruminação e desconexão podem causar sobrecargas emocionais.

Por que é difícil ser auto-consciente?

A resposta mais óbvia é que na maioria das vezes simplesmente não nos observamos. Ou seja, não prestamos atenção ao que está a acontecer dentro de nós ou à nossa volta. Outra razão é porque a autoconsciência é uma habilidade e, como qualquer habilidade, precisa de ser aprendida.

Toda a aprendizagem passa por vários estágios primários, sendo um deles a incompetência inconsciente. Devido ao desconforto que essa incompetência nos traz, muitas vezes evitamos aprender coisas novas. Aprender a autoconsciência requer o mesmo desconforto.

Como tal, a maioria das pessoas passa a vida sem desenvolver a autoconsciência.

Os psicólogos Matthew Killingsworth e Daniel T. Gilbert descobriram que nós operamos, quase metade do tempo, em “piloto automático”, isto é, inconscientes do que estamos a fazer ou de como nos sentimos, enquanto a nossa mente vagueia por outro lugar que não seja o aqui e agora.

Além do desvario mental, o viés cognitivo também afecta a nossa capacidade de compreensão precisa de nós mesmos; tendemos a acreditar no juízos e crenças que apoiam o nosso senso do eu já existente.

O economista comportamental Daniel Kahneman, autor do best-seller Pensar, Depressa e Devagar, mostra que apesar da nossa confiança no nosso autoconhecimento, geralmente estamos errados.

Como se pode constatar, não somos tão conscientes quanto poderíamos pensar. E, se não somos conscientes, somos inconscientes.

Como desenvolver a autoconsciência?

A autoconsciência é uma habilidade fundamental e essencial para qualquer pessoa interessada no desenvolvimento pessoal autêntico.

A chave para desenvolver a autoconsciência é a mesma de qualquer outra habilidade: é necessário método e orientação corretos combinados com a prática consistente.

Felizmente, há muitas actividades de autoconsciência e exercícios destinados a aumentar a nossa sensibilidade em relação ao que está a acontecer dentro de nós e à nossa volta.

Como aprofundar o autoconhecimento?

A maioria das tentativas de desenvolver a autoconsciência fracassa porque visam apenas o neocórtex (pensamentos, crenças, preconceitos). A nossa mente é extremamente hábil a armazenar informações sobre como reagimos a um determinado evento e a criar modelos da nossa vida emocional.

Essas informações acabam geralmente por condicionar a nossa mente a reagir de uma certa maneira, à medida que nos deparamos com eventos semelhantes no futuro.

A autoconsciência permite-nos estar conscientes desse condicionamento e dos preconceitos da mente, que pode ser o ponto de partida para os libertar.

O objectivo é tornarmo-nos mais conscientes do que impulsiona o nosso comportamento. Para isso, precisamos de aumentar a nossa sensibilidade às nossas emoções e instintos, e explorar os nossos pensamentos, crenças e preconceitos com mais eficácia.

O Autoconhecimento começa no interior

A autoconsciência consiste em estar atento às nossas identidades e experiências vividas e como elas se relacionam com as de outras pessoas à nossa volta.

Não é fácil, mas existem algumas opções simples.

  1. Reconexão: A reconexão deve ser sempre o ponto de partida porque aumenta a nossa atenção. Refugie-se por algum tempo, longe de distrações físicas, sonoras, digitais…, e preste atenção ao seu mundo interior – o que está a sentir, o que diz a si mesma e anote o que observa. Passe algum tempo consigo mesma todos os dias – escreva, medite e conecte-se consigo mesma – no início da manhã ou meia hora antes de dormir.
  2. Prática de Meditação Mindfulness: A atenção plena é a chave para a autoconsciência. A prática da atenção plena, consite em focar a atenção no estado interior – pode ser a respiração ou os pensamentos, mas também pode ser qualquer informação que venha através dos cinco sentidos. Através da meditação observacional, criamos um espaço entre o agente das acções, o pensador dos pensamentos e o sentimento dos sentimentos.
  3. Prática da escuta empática: Ouvir não é o mesmo que escutar. Escutar é estar presente e prestar atenção às emoções e à linguagem verbal e não verbal das outras pessoas. É mostrar empatia e compreensão sem avaliar ou julgar constantemente. Quando se tornar uma boa ouvinte, também ouvirá melhor a sua própria voz interior e tornar-se-á a melhor amiga de si mesma.
  4. Manter um diário: Escrever ajuda-nos, não só a processar os nossos pensamentos, mas também faz-nos sentir conectados e em paz connosco mesmos. Há abundante evidência ciêntifica de que escrever as coisas pelas quais somos gratos ou até mesmo coisas com as quais nos debatemos ajuda a aumentar a felicidade e a satisfação. Também pode usar o diário para registar o seu estado interno. Experimente – dedique a isso por uma hora no fim de semana. Poderá se surpreender com o que  escreve!

Ser autoconsciente é crucial, sobre todos os aspectos, para se estar ciente dos pensamentos e emoções que se está a sentir em cada momento, para agir em vez de reagir. A autoconsciência promove a resiliência!

Maturidade Emocional

11 meses atrás · · 2 comentários

Maturidade Emocional

A maturidade emocional caracteriza-se pela manifestação de competência para lidar com as adversidades da vida. Esta competência para alinhar pensamentos e emoções, é o resultado do exercício de habilidades de inteligência emocional como: autoconsciência, autocontrolo, automotivação.

A maturidade emocional está relacionada com a resiliência.

A maturidade emocional está directamente relacionada com a resiliência. É a habilidade de desenvolver tolerância às frustrações e revezes inevitáveis a que todos nós estamos sujeitos. Tolerar bem as frustrações e desenvolver capacidade de absorver os golpes e dores da vida não significa não sofrer com eles. Ter maturidade emocional, implica enfrentar as frustrações e adversidades, com responsabilidade, sem culpar terceiros pelo que ocorreu ou pelo que sente.

Ser emocionalmente maduro implica ser capaz de enfrentar os desafios e livrar-se, tão depressa quanto possível, da tristeza ou do ressentimento que esses eventos possam ter causado. As pessoas emocionalmente maduras também se irritam, simplesmente transformam a raiva em motivação para a mudança positiva.

Maturidade emocional implica consciência social

A maturidade emocional implica consciência social, empatia e competência para se relacionar com as pessoas em todos os ambientes. É adquirir habilidade para evitar ou mediar conflitos, e apetência para desenvolver relacionamentos positivos e saudáveis. Assim, a pessoa mais amadurecida procura evoluir também social e moralmente, o que a leva a agir com equidade, afabilidade, compreensão e gentileza.

O crescimento emocional é um processo evolutivo e, por isso mesmo, interminável. Somos todos obras em construção e, o nosso progresso só é possível através de autoconhecimento, autorregulação e consciência social. Agir com inteligência e maturidade emocional requer, tal como tantas outras competências, aprendizagem, apoio, prática e experiência.

Maturidade é reconhecer e aceitar a nossa vulnerabilidade

Finalmente, em prol da paz e harmonia interiores, é importante termos presente a nossa condição de seres humanos e, portanto, vulneráveis. Reconhecer e aceitar a nossa vulnerabilidade, é uma prova de maturidade e coragem. Saber se colocar perante as circunstâncias, sem se vitimizar, sem se culpar ou culpabilizar outros, é o primeiro passo para sair do modo de sobrevivência e começar a ter uma vida mais plena, mais realizada e mais feliz.

A Vida e os ciclos de 7 anos

2 anos atrás · · 1 comentário

A Vida e os ciclos de 7 anos


Hoje vou abordar um tema que me diz muito. Os ciclos da vida!

Todo o Universo, tudo na natureza tem uma ordem implícita. Este facto foi identificado pelas civilizações antigas que perceberam a renovação cíclica da natureza e da vida.

Desde as estações do ano, às fases da lua, as marés, as ondas, entre inúmeros eventos de transformação, renovação e mudança, facilmente visíveis ou imperceptíveis, é identificável uma ordem cíclica. Todavia, nós, os povos modernos e evoluídos, raramente vemos isso.

Os nossos ancestrais reconheceram que cada fase da vida oferece um conjunto específico de desafios e lições que aumentam a nossa maturidade e apoiam a nossa individuação.

No início do século XX, o filósofo Rudolf Steiner, presenteou a humanidade com o seu próprio mapa da vida que revelou algumas das lições importantes que devemos dominar à medida que nos desenvolvemos.

Steiner apresentou este mapa como os 10 ciclos que todos aqueles que chegam à idade de 70 anos devem passar.  Cada ciclo, disse Steiner, é composto por sete anos, e oferece os seus próprios desafios e recompensas.

Se confrontarmos essas lições com coragem, honestidade e sinceridade, as lições serão dominadas e o nosso desenvolvimento psicológico e espiritual será profundamente beneficiado.

Eis os ciclos da vida de Steiner:

Idades dos 0 aos 7 anos: Da unidade com a mãe à autonomia crescente

Desde que nascemos, e durante os primeiros anos das nossas vidas, somos totalmente dependentes.

No entanto, afastamo-nos naturalmente das nossas mães para um sentido crescente da nossa própria individualidade e autonomia.

Esta é a lição da primeira etapa da vida – a experiência de total dependência para um sentido crescente de individualidade e poder.

É neste ciclo de desenvolvimento físico e mental que se inicia a aprendizagem no seio da família. Nos primeiros anos de vida, especialmente entre o nascimento e os dois anos de idade, a criança dificilmente consegue distinguir entre ela e a mãe.

Mas à medida que começa a ganhar autonomia, começa a experimentar naturalmente um maior sentido de poder pessoal e liberdade.

Gradualmente, a criança percebe-se separada da mãe, experimenta os estágios iniciais dos seus desejos e necessidades, que precisa que sejam satisfeitos, começa a socializar com outras crianças, a   experienciar o senso de individualidade, a ter noção do seu corpo, dos seus limites e a ter as suas percepções do mundo.

Dos 7 ao 14 anos: Sentido se Si e comprometimento com a vida

O poder emergente da força vital da criança e o compromisso com a vida é testado durante este período.

Ocorrem grandes mudanças energéticas, surgem as doenças infantis, o corpo físico é posto à prova para enfrentar os desafios e ameaças à vida e, apoiando-se nas forças vitais, luta pela sua vida e, no processo, o sistema imunológico reforçar-se a fim de enfrentar os desafios e apostar na sua vida.

É também neste ciclo que a criança desenvolve o sentido crítico e, os pais e educadores desempenham um papel determinante para a imagem do mundo que a criança criará.

A autoridade excessiva pode levar, no futuro, à timidez, introversão, baixa autoestima, etc., enquanto que a permissividade excessiva pode conduzir à extroversão exagerada, desrespeito, libertinagem, ou mesmo quadros de histerismo.

Este é o período de desenvolvimento das emoções e em que são absorvidas as normas e hábitos. O desenvolvimento sadio do ser humano está profundamente relacionado com a dosagem, o equilíbrio e a harmonia das relações de autoridade, valores, limites e permissões.

Dos 14 aos 21 anos:  Emoções selvagens, sexualidade e crise de identidade

Steiner sustentou que as nossas emoções estão alojadas num aspecto específico do nosso espírito, a que ele se referiu como corpo astral.

O corpo etéreo é a energia pura da vida, com a sua própria inteligência, necessária para executar o corpo físico e manter a sua saúde.  O corpo astral é outra camada de energia que compreende o campo energético humano.

O aspecto astral do campo energético detém as emoções, que durante este período se acendem como um cavalo selvagem e exigem atenção e aproveitamento.

Esta fase da vida é dominada por energias emocionais muitas vezes incontroláveis ​​e confusas. Esta turbulência reflecte-se na imprevisibilidade das relações.

Fazemos amizades que, de alguma forma, se transformam em conflitos e traições.

Apaixonamo-nos, estabelecemos ligações românticas intensas e, com a mesma facilidade, desapaixonamo-nos, resultando em muita dor e dramas emocionais.

Steiner sustentou que, durante este período, a nossa natureza animal governa as nossas vidas.   Somos impulsionados por energias emocionais, necessidades irracionais e instintivas para cujo confronto estamos pouco preparados, razão pela qual este período é tão conturbado.

Idades entre 21 e 28 anos:  O “Eu” – Independência e responsabilidade

O fim do crescimento corporal dá lugar ao processo de crescimento mental e espiritual. A partir dos 21 anos a nossa individualidade, o nosso Self, ganha uma força considerável na tentativa de se mostrar.

No entanto, para que esse “Eu” se forme e apareça, mesmo sendo algo subjectivo e interno, depende do mundo exterior, da sociedade. As histórias pessoais começam a ser traçadas pelos próprios. É a emancipação a todos os níveis.

Surpreendentemente, é também a fase em que mais somos influenciados pelos outros. Neste ciclo, os valores, os ensinamentos, as lições de vida, passam a fazer mais sentido. No início e até ao meio deste ciclo, ganhamos algum controlo sobre as nossas emoções e começamos a integrar as nossas faculdades racionais, que nos dão um maior controlo sobre as nossas ações.

Durante estes anos, a maioria das pessoas são saudáveis, cheias de energia e ávidas pela vida, sendo comum que os jovens sintam uma certa invencibilidade e até arrogância e, possuídos por um entusiasmo selvagem, independência e imprudência, por vezes correm riscos excessivos e desafiam os seus limites.

À medida que avançam na casa dos 20 anos surge a maturidade e, conforme o marco dos 30 anos de idade se aproxima, começam a sentir a necessidade de se tornar adultos responsáveis. Para muitos é o fim dos anos loucos.

Em compensação, disse Steiner, começamos a experimentar os primeiros sinais dos nossos talentos e habilidades especiais. Despertamos para vocações pelas quais sentimos uma atracção especial e, alguns, até mesmo para o amor. Os voos mitológicos de fantasia começam a chegar ao fim, iniciando-se as aterragens para a vida.

Também começamos a aprender a pensar em outras pessoas além de nós mesmos.  Estamos a expandir e ver a vida com um olhar mais altruísta e com outra amplitude.

Com efeito, os eventos coincidem com esses sentimentos e necessidades.  As pessoas casam-se, constituem família, têm empregos estáveis e tornam-se mais responsáveis. Em suma, começamos a nos tornarmos simplesmente mais práticos.

Dos 28 aos 35 anos:  O corpo em plena floração – fase organizacional e  crises existenciais

Entre os 28 e os 35 anos, as capacidades físicas do corpo chegam ao auge. O corpo físico atinge a maturação e podemos mesmo desfrutar de maior vitalidade física, se adoptarmos hábitos e comportarmos que promovam a melhoria da saúde física.

Tendo estabelecido os nossos alicerces físicos, começamos a experimentar o impulso pleno das nossas ambições.

Os talentos que podem ter começado a anunciar-se no final da década dos 20 anos, irrompem durante este período também e, é frequente sentirmos um enorme apetite para aprender e melhorar as nossas habilidades.

Este período desafia-nos a canalizar as nossas habilidades para áreas específicas da vida.  A vida pede-nos para nos especializarmos, tornarmo-nos peritos.

A vida diz-nos para nos individualizarmos, tornarmo-nos seres únicos.

Neste ciclo, o antagonismo das nossas ambições e desejos pode causar sensações de angústia, frustração e amargura, o que pode turvar a nossa visão, forçando-nos a ver as pessoas e situações numa perspectiva simplistas de amigo ou inimigo, preto ou branco.

Somos então desafiados a olhar para além da superficialidade e a ver mais profundamente a complexidade da vida e das pessoas.

Estamos sujeitos ao cosmos, às oscilações e por vezes é difícil ter harmonia. É-nos exigida firmeza e estabilidade, tanto material como mental e espiritual e, a consciência de que temos limites causa frustração e tristeza, surgem os abalos da nossa identidade, as crises existenciais. Então, surgem os desejos de mais autoconhecimento e busca espiritual.

A partir deste ciclo há uma renovação porque, partindo da avaliação da trajectória da nossa vida, surgem novos pensamentos, novos valores, novas relações e reorganizações. Estamos agora no comando dos nossos poderes físicos e instintos e temos a capacidade de os usar para realizar os nossos desejos e a nossa visão pessoal.

Idades dos 35 aos 42 anos:  Crise de autenticidade – o questionamento

Na jardinagem e fruticultura chama-se “poda”.  A planta é cortada, aparada, encurtada e, no processo fica mais forte.  Durante este período a crise atinge-nos em cheio. Muitos de nós somos podados por eventos que parecem estar além do nosso controlo e, no processo, sentimos decepção e uma sensação de fracasso.

As decepções mais comuns são as perdas relacionais, profissionais ou financeiras.  Outros sofrem abalos na saúde ou de outro tipo.

O que quer que ocorra, a verdade é que muitos de nós sofremos reveses e perdemos a confiança em nós e na vida. Neste ponto, podemos abraçar as nossas limitações e viver vidas menores, ou arregaçar as mangas e começar de novo.

Somos desafiados a começar de novo, a repensar e refinar os nossos caminhos, mas a permanecer fieis e comprometidos com os nossos sonhos.

Também somos convidados a ampliar a nossa visão da vida e a abraçar uma via mais espiritual.  Viemos a este mundo para aprender e fazer crescer as nossas almas e não para sermos totalmente consumidos por objectivos e ambições materialistas.

A alma abana a jaula da vida durante estes anos e acorda-nos para a sua presença e necessidades.

Somos instados pelo espírito a fazer algumas perguntas simples: Qual é a verdadeira fonte da minha felicidade e de tudo o que eu quero para mim na vida?  É o mundo material, ou tudo que eu preciso e quero flui do espírito?

Se o último é verdadeiro, então devo voltar-me para o espírito para tudo o que preciso e quero e, no processo, devo começar a formar uma nova relação com a minha fonte. Procuramos a essência de tudo, no outro e em nós. O desfio é encontrar valores espirituais e nos reconhecermos como seres únicos.

Segundo Steiner, a nossa humanidade, com as suas qualidades racionais e espirituais, está agora à frente dos nossos instintos, liderando o caminho.

O espírito vai emergindo e começa a tomar conta das nossas vidas. É um ciclo de transição. Antes vivíamos exclusivamente de acordo com os nosso desejos e poder.

Agora voltamo-nos cada vez mais para Deus (ou para a fonte) para tudo o que precisamos. Há uma maior aceitação do que se é, das histórias pessoais e experiências de vida.

Idades dos 42 aos 49 anos: A Busca da alma – altruísmo e expansão

Este ciclo tem tanto de perscrutação da alma como de emaravilhamento com a vida. Estejamos conscientes disso ou não, movemo-nos em direcção a um equilíbrio profundo entre o domínio das nossas habilidades precoces e novos poderes espirituais que nos ajudam a potencializar essas habilidades.

Este é um período de grandes mudanças. Os filhos saem de casa, as mulheres entram na menopausa, surge o medo do envelhecimento e, as questões internas despertadas pelos ciclos anteriores, entram em contradição com o saudosismo, o desejo de reviver experiências da adolescência e fazer coisas que os jovens fazem.

À medida que nos aproximamos dos 49 anos, tornamo-nos cada vez mais conscientes de uma grande transição na vida.

Conforme entramos nos últimos estágios deste período, a criatividade e a imaginação florescem. A nossa visão da vida expande-se e seguimos em novas direcções. Desenvolvemos uma visão mais ampla e humanitária da vida.

Procuramos estar ao serviço da nossa comunidade ou do mundo. Segundo Steiner, o espírito exige-nos que encarnamos os nossos valores espirituais e ideais nas nossas vidas diárias. É um momento em que a alma ganha o controlo crescente sobre as nossas vidas e nos impõe os seus valores.

Começamos a ver, mesmo que apenas intuitivamente, que deve ser alcançado um equilíbrio entre as nossas necessidades terrenas e as nossas preocupações idealistas para com a humanidade. À medida que nos aproximamos dos 50 anos, começamos a sentir que se adivinham grandes mudanças, a ver as partes das nossas vidas que enfatizamos demasiado, e as partes que negligenciamos.

Este é um tempo de reflexão. A nossa intuição torna-se a bússola pela qual dirigimos as nossas vidas.

Dos 49 aos 56 anos:  Uma visão e compreensão da vida cada vez maior

A dádiva dos 50 é a inspiração, o domínio e o poder crescente. Somos abençoados com uma riqueza de experiências que nos deram uma certa sabedoria e, se tivermos integrado os ideais e aprendizagens dos ciclos anteriores, e desenvolvido as nossas almas, emergimos naturalmente como guias e líderes nas nossas comunidades e na sociedade em geral.

É o início de um novo período de maestria e poder pessoal. É a fase de desenvolvimento do espírito e um período em que estamos mais conscientes do mundo e de nós mesmos.

Neste ciclo, desperta em nós o existencialismo e vemos os eventos numa perspectiva mais humanista, sem nos deixarmos abater pelas vicissitudes do dia-a-dia. Se tivemos cuidado da nossa saúde e mantido a vitalidade, agora podemos tornar-nos as pessoas que sempre desejámos ser. O nosso Eu autêntico começa a ganhar forma e a vida ensina-nos a ouvir a voz do coração.

Aqueles que negligenciaram a vida espiritual sentem-se cada vez mais confusos pelo processo de envelhecimento e aterrorizados pela sua própria mortalidade. Apegam-se a uma juventude ilusória e desbotada que, à medida que os anos avançam, se torna cada vez mais fugaz.

Idades dos 56 aos 63 anos.  A encruzilhada: maestria ou reavaliação.

Steiner afirmou que os 56 anos são um importante ponto de viragem na vida.  Nesta fase, emergem à consciência, novas capacidades intuitivas e espirituais, especialmente se tiver sido guiado na vida pelo seu coração e alma. A intuição torna-se o sentido mais importante, que nos conduz às respostas e nos orienta na vida.

É a base do senso de conexão com a fonte e, à medida que a conexão aumenta, experimentamos mais tranquilidade, harmonia e bem-estar com a vida. Tudo isso acontece à medida que o verdadeiro propósito de vida emerge à consciência com maior clareza e poder. Sentimo-nos atraídos para uma missão a que começamos a dedicar todos os nossos talentos, conhecimentos e competências ao serviço de uma causa maior do que as nossas próprias necessidades e ambições pessoais.

De acordo com Steiner, para aqueles que negligenciaram a vida espiritual, este ciclo marca um ponto de viragem em que a vida força uma reavaliação. Este período é frequentemente acompanhado por alguma forma de crise que nos faz reflectir e retornar a uma vida mais centrada no coração e baseada na espiritualidade.

Face a essa crise, disse Steiner, o espírito força a um olhar mais profundo sobre a vida o que, nesse momento, pode ser doloroso e confuso, especialmente se não tivermos dedicado muito tempo ao trabalho de desenvolvimento espiritual e, o medo da morte torna-se desesperante.

Idades dos 63 aos 70 anos:  Tempo de colheita e distribuição da riqueza.

Este período é um tempo de bênção, graça e oportunidade. Nas comunidades tradicionais, estes eram os anciãos, aqueles a quem recorriam pela sua sabedoria, visão e dons intuitivos. Estamos livres das labutas profissionais e, no entanto, ainda podemos ter uma energia e vitalidade consideráveis.  Somos professores, conselheiros, guias e fontes de inspiração para os outros.

Este é o período em que desejamos apoiar os que vêm a seguir a nós, que ainda estão envolvidos nas lutas da vida. É um período de grande poder e recompensa porque já estamos livres das lutas da vida, mas importamo-nos profundamente com as batalhas dos outros. O nosso principal elo de ligação à sociedade é o nosso amor e carinho, e a consciência de que os outros ainda precisam do dom da nossa experiência, sabedoria e orientação.

Acima dos 70 anos:  Reflexão.

Durante este período, já não estamos vinculados por qualquer responsabilidade para com os outros. É um momento em que se avalia e faz um balanço da vida, reflectindo sobre o passado, e experimentando a riqueza do presente.

Este é o limiar do Renascimento para o próximo mundo, o período de preparação para a próxima aventura.  Aguarda-se a chamada.

Todavia, aqueles que negligenciaram o trabalho espiritual, vivem agora atormentados pelo envelhecimento e pelo medo da eminência da sua morte.

Há bênçãos em todas as fases da vida. A nossa energia vital circula pelas diversas fases, a nossa mente tem diferentes níveis de aprendizagem e a nossa espiritualidade também pode estar mais ou menos aberta conforme cada estádio. Todas as culturas tradicionais sustentavam que a vida melhorava à medida que nos íamos tornando mais velhos.

Todavia, essa não é a mensagem passada a muitos de nós neste nosso mundo orientado para a juventude. Compete a cada um de nós, cidadãos do mudo, empreender as mudanças ao nosso alcance para que a vida seja vista com outras lentes, pois há muita verdade no que Steiner e outros disseram – os melhores anos estão à nossa frente, se seguirmos os ditames do coração e desenvolvermos os poderes impressionantes das nossas almas.

Feito com ♥ por Krystel Leal e Ana Paula Vieira
Conteúdos da autoria de Ana Paula Vieira. Todos os direitos reservedos
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