Arquivo de Pandemia - Ana Paula Vieira

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Que aprendizagens nos trouxe a pandemia?

2 meses atrás · ·0 Comentários

Que aprendizagens nos trouxe a pandemia?

A COVID-19 impôs-nos  muitas mudanças e touxe-nos aprendizagens inesperadas. Ao longo dos últimos meses  temos vivido num estado de medo de um novo inimigo. Mas, afinal que aprendizagens é que a pandemia nos trouxe? O estilo de vida a que estávamos habituados e a forma como nos relacionamos foram alteradas, de maneira abrupta. Ensinou-nos a priorizar a vida, de modo a podermos lidar com esta ameaça, invisível a olho nu, que é representada como um símbolo de perigo na nossa mente.

A humanidade tem estado (e continua a estar) ameaçada por um virus que ataca, sorrateira e indiscriminadamente, afectando a forma como damos sentido, física e emocionalmente, ao mundo. Mas, conforme referi num artigo anterior, não baixámos os braços!

O que estamos realmente a aprender com esta pandemia?

Creio que todos nós aprendemos lições muito significativas com esta pandemia, para nós e para as gerações vindouras. Consideremos, por exemplo, a forma como os espaços comerciais se reinventaram rapidamente. Os comerciantes adaptaram-se de forma célere para acolher com segurança os nossos novos eus potencialmente contagiosos. Determinara a forma como fazemos compras em termos de quantidade, frequência e com quem. Graças aos sinais visíveis e à vigilância cortês, fizeram com que nos tornássemos conscientes de nós e dos outros, e de como cada um de nós ocupa o espaço agora, em comparação com a forma como o fazíamos antes.

Mas, o que aprendemos realmente com esta experiência? Como percebemos e lidámos com a situação? Vale a pena reflectir sobre dois aspectos: a resiliência que desenvolvemos, que é a capacidade de adaptação a situações adversas; e a conscientização de humanidade comum, somos todos partes do mesmo todo.

Viver com o vírus ensinou-nos a valorizar o trabalho muitas vezes invisível, porém essencial, daqueles que estão a trabalhar por nós e para nós  para que nada nos falte; a adquirir novas aptidões, forçando-nos a encontrar novas formas de trabalhar, de fazer compras, de aprender, de socializar, de rezar, de brincar e até mesmo de nos comportarmos e interagirmos uns com os outros.

Também nos ensinou que as crianças podem e devem ser incluidas nas tarefas domésticas, o que lhes traz um enorme senso de responsabilidade pelas suas acções; que muitas actividades, incluindo físicas, podem ser feitas em casa por via de meios digitais; ou que podemos reduzir as nossas deslocações, diminuindo assim o trânsito e a poluição.

Como estamos a lidar com a COVID-19 no pós-confinamento

Apesar de muitas mudanças e aprendizagens que podemos genuinamente considerar positivas, a nossa realidade mudou irremediavelmente. Segundo o Forum Nacional de Psicologia “os efeitos  da pandemia covid-19 serão múltiplos e profundos e as consequências para a saúde psicológica dos cidadãos ocuparão um lugar de destaque”. A verdade é que estamos agora a aprender a adaptar-nos ao distanciamento social em todas as áreas da vida,  perpetuando um medo persistente que ameaça sobreviver ao próprio vírus.

Quanto tempo vamos demorar a recuperar do distanciamento social em que temos vivido? Esta necessidade de salvar vidas que tem marcado as nossas mentes e os nossos corpos.

Será a nova normalidade vivermos num mundo onde os rostos estão escondidos da vista, os sentidos embotados por luvas de borracha e a possibilidade de contacto humano protegido por um vidro protector? Como é que os nossos corpos físicos irão lidar com isso? E como é que o nosso novo e frágil mundo – e mais higienizado – irá lidar com todos estes corpos?

Como vamos ultrapassar o medo de qualquer um de nós poder constituir uma ameaça?

Como vamos então lidar com a presença física de terceiros, quando formos encorajados a reconquistar os nossos espaços nos transportes públicos, nos escritórios em open space, em fábricas, estaleiros, aeroportos, salas de aula, salas de concertos e centros comerciais? À medida que a distância de segurança de dois metros se vai encutando lentamente, como vamos ultrapassar esta nova encarnação física do medo – o facto de qualquer um de nós, incluindo nós próprios, poder constituir uma ameaça?

A forma como  ocupamos (os nossos corpos) o espaço influencia directamente a forma como agimos e pensamos.

Apesar de tipicamente darmos primazia à mente sobre o corpo, é evidente que as lições aprendidas com  e através do corpo são duradouras. Basta pensarmos, por exemplo, no impacto social e psicológico duradouro da segregação dos espaços com base na raça ou na classe social.

A forma como utilizamos o espaço afecta-nos emocional, social, cultural e economicamente

A forma como utilizamos o espaço – a nossa proximidade, a nossa distância e as fronteiras que criamos entre nós – afecta-nos emocional, social, cultural e economicamente. Agora estamos a testemunhar a forma como os nossos corpos se ajustam e aprendem a lidar com um novo mundo moldado por uma pandemia.

O medo dos corpos dos outros não é inédito e a humanidade tem uma longa e lamentável história de separatismo e segregação ou de apontar alguns como mais assustadores ou perigosos do que outros, quer se trate de muçulmanos após o 11 de Setembro, de refugiados no processo de elaboração do referendo do Brexit ou da sistemática e contínua descriminação dos negros ou dos homosexuais.

O medo da COVID-19 pode tornar-se intrinsecamente visceral, firmemente enraizado na nossa memória física, tornando o nosso medo recém-adquirido uns dos outros ainda mais difícil de eliminar. Todavia, a natureza universal da COVID-19 torna os corpos praticamente indistinguíveis uns dos outros, tornando-nos a todos simultaneamente vulneráveis e perigosos. Este facto pode ser encorajador!

Renegociar o espaço pessoal será a nova normalidade?

A COVID-19 pode ser encarada como um grande nivelador, encorajando-nos a reconhecer a nossa própria vulnerabilidade e a vulnerabilidade dos outros, para que possamos combater o vírus como uma frente unida e igualitária. Já se perderam imensas vidas e continuam a perder-se, diariamente, em todo o mundo. Cada um de nós só estará a salvo quando todos estiverem a salvo. A nova forma de vida, pós-COVID-19, pode tornar-nos mais responsáveis e mais conscientes do impacto que as nossas acções (e os nossos corpos) têm sobre o ambiente, sobre a economia e uns sobre os outros, social, física e emocionalmente.

Quando começarmos realmente a libertar-nos dos nossos casulos de confinamento, a noção de um regresso à “normalidade” será simultaneamente uma impossibilidade e uma oportunidade perdida. Todos nós saímos perdedores e ganhadores desta pandemia. Mas as perdas são mais significativas para uns do que para outros.

Quem são os heróis deste marco na história da humanidade?

Quem entretanto perdeu os seus entes queridos, enfrenta agora um processo de luto marcado pela impossibilidade do último adeus. Algumas feridas que se criaram ao longo destes meses irão demorar a cicatrizar. Mas, sobreviver a uma pandemia global, tanto física como emocionalmente, é a cicatriz que devemos usar com orgulho, revelando a ferida que tanto nos curou como nos moldou.

Foram e continuam a ser inúmeros os que colocaram o bem-estar dos outros à frente do seu próprio bem-estar e até da sua saúde, física e mental. São muitos os heróis e heroínas que ficarão ligados a este marco na história da humanidade. Esta tem sido uma oportunidade única para todos, sem excepção, nos tornarmos melhores seres humanos. Mas acredito que os verdadeiros ícones serão aqueles que conseguirem ressignificar as suas experiências dolorosas e crescer a partir delas, dando um novo sentido à sua vida!

Gostaria muito de saber qual a tua opinião sobre este tema.

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O que vai emergir da pandemia

3 meses atrás · ·0 Comentários

O que vai emergir da pandemia

Um simples virus foi quanto bastou para interromper uma normalidade viciada. Uma paragem forçada que veio expor as fragilidades de pessoas, famílias, organizações e das sociedades actuais, em geral. A inaptidão para lidar com o inesperado tornou-se visível em alguns países! Também se tornou claro que há uma dificuldade generalizada para lidar com o stress, a ansiedade e a solidão e que não existem redes de apoio suficientes para acudir a essas situações. E, uma vez mais, algumas redes de trabalho voluntário foram chamadas a dar 500%, porque os meios para lidar com estas questões são claramente insuficientes. Então, o que vai emergir da pandemia?

O isolamento social, tão necessário para nossa autopreservação, para protecção dos nossos entes queridos, e por respeito a quem está na linha da frente, para que nada nos falte (conforme referi no último artigo, “Não podemos baixar os braços“), nem sempre é encarado da forma mais positiva.

Quando uma crise se instala podemos entrar rapidamente em colapso

Quando uma crise se instala, se não houver estruturas sólidas ou planos de contingência, podemos rapidamente entrar em colapso. Mas podemos sentir-nos novamente gratos pelo voluntarismo de muitas pessoas que, apesar das suas dificuldades pessoais (porventura, financeiras porque a nossa economia é sustentada por prestadores de serviços e, portanto, sem um salário fixo), foram as primeiras a reagir positivamente e a disponibilizar, gratuitamente, todo o tipo de serviços e apoios nas redes sociais. Desde sessões terapêuticas, meditação, exercício físico, actividades lúdicas para as crianças, formação específica nas mais variadas àreas de conhecimento, etc., têm sido inscansáveis.

Certamente já todos viram as inúmeras mensagens que circulam nas redes sociais e nos meios de comunicação sobre como é fantástico ver o mundo solidário contra a Covid-19. Mas, o que vai surgir quando terminar o isolamento social? Se por um lado, isto nos dá esperança de que seja possível fazer mudanças profundas e nos inspira e motiva porque nos sentimos unidos num propósito, numa missão e numa visão, por outro há uma certa realidade escondida na qual, em geral, não pensamos. Esquecemos que há outras realidades que não estão a ser mostradas nas redes sociais porque estamos em modo de confinamento. Refiro-me aos sem-abrigo, às vítimas de violência doméstica, à fome escondida, que deixaram de estar visíveis graças à pandemia.

Por momentos acreditei que a interdependência humana seria reconhecida e honrada. Como dizia Einstein, “Nenhum dos problemas do mundo é tecnicamente difícil de resolver; eles têm origem no desacordo humano”.

O que está realmente a motivar os “decisores” políticos e económicos é uma história diferente

No entanto, quando olhamos para o que está realmente a motivar os “decisores” políticos e económicos nos dias de hoje, emerge uma história diferente.

Em vez de serem impulsionados por um desejo de bem comum, a partir de um lugar de motivação interna, de doação natural, de coração aberto, estamos a ver o ressurgimento acelerado de tendências pré-existentes, políticas, económicas e sociais… Basta olharmos para a polémica que se gerou em torno da celebração do 25 de Abril, ou prestarmos atenção às notícias acerca do aproveitamente que algumas organizações estão execer em vários quadrantes da economia. Mais uma vez, as futilidades se sobrepõem ao essencial.

Afinal, o que está a emergir da consciência colectiva? Queremos continuar a perpetuar sistemas de dominação e controlo, que obscurecem e tornam redutoras as questões mais profundas da vida humana, que precisamos de analisar e transformar?

O que vai emergir quando for possível voltar à normalidade?

Quando for possível voltar às nossas rotinas teremos tido a oportunidade para nos perguntarmos se queremos mesmo voltar a essa normalidade. O que vai emergir desta situação? A minha esperança mais profunda é que, durante este tempo, tenhamos visto o que queremos mesmo levar para o futuro. Será que os estilos de vida que tínhamos são dignos de continuidade, ou teremos aprendido algo muito mais significativo com esta experiência? Os nossos valores mantêm-se inalterados ou sentimos necessidade de fazer uma reordenação na sua escala? O que ganhámos? E o que perdemos? Teremos percebido aquilo em que vale a pena continuar a investir tempo, recursos e energia? Que legado queremos deixar às gerações vindouras? Que tipo de pessoas, de organizações, de sociedade, de país queremos ser?

O sentido da vida não pode continuar a ser adiado. Esta pode ter sido uma das derradeiras oportunidades que nos foi dada, enquante espécie, para construirmos novas sociedades, mais holísticas para que possamos retomar o caminho de reencontro com o essencial, com o humanismo perdido nas teias do consumismo.

Temos um manancial de oportunidades de contribuir para uma nova normalidade

Agora, mais do que nunca, precisamos de nos examinarmos a nós próprios, de nos questionarmos se queremos continuar a mover-nos pelo medo ou em piloto automático. Queremos continuar a manter padrões de comportamento de ataque ou fuga, ou pelo contrário, estamos dispostos a entrar em contacto com a nossa natureza compassiva e generosa e a trabalhar com ponderação para criarmos sistemas de vida conectados e humanizadores, que sirvam verdadeiramente a vida de todos os seres que habitam no nosso planeta?  Como sempre, temos um manancial de oportunidades para contribuir para uma nova normalidade através do nosso próximo passo, da nossa próxima acção, da nossa próxima escolha, da nossa atitude, da nossa relação com os nossos medos e da nossa relação com os outros e com o mundo.

Creio que não podemos continuar a viver as nossas vidas, e a nos relacionarmos, connosco ou com os outros, a partir de uma posição de vítima ou de agressor/opressor.

Precisamos de desenvolver o hábito de nos relacionarmos connosco próprios e com os outros a partir da vulnerabilidade, da empatia, da compaixão, da humanidade partilhada e da interdependência. Acredito que o caminho para vivermos vidas mais plenas e gratificantes, para sermos realmente felizes será por aí.

Gostaria muito de saber qual é a sua opinião.

O que ressoou consigo?

Que questões adicionais lhe surgiram?

Ou se vê isto de forma diferente?

Que mais poderia acrescentar à discussão?

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