Outubro 2019 - Ana Paula Vieira

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O Luto em Crianças e Adolescentes

8 meses atrás · ·0 Comentários

O Luto em Crianças e Adolescentes

A morte é um assunto Tabu na nossa sociedade (Ocidental) e, consequentemente, o tema não é abordado nas escolas nem pelas famílias. Todavia é expectável que, qualquer pessoa que viva de acordo com a esperança de vida estimada, sofra muitas perdas ao longo da sua vida, sejam de familiares e amigos, de colegas ou de animais de estimação. O resultado desta atitude é que, quando a perda ocorre não sabemos o que fazer e/ou dizer às crianças, deixando-as à deriva, confusas e frequentemente assustadas.

Como explicar a morte às crianças e adolescentes

Se o adulto, perante a morte fica desorientado, a criança e o adolescente ficam muito mais perdidas pois falta-lhes a informação, a explicação do que aconteceu e de como irá continuar a viver sem o ente querido que perdeu. É óbvio que isso irá causar-lhes dor e sofrimento, mas, para que haja uma compreensão da morte e possam iniciar o processo de luto, esse é o primeiro passo a dar. A elaboração do luto implica, necessariamente, sentir a dor da perda.

A criança, tal como o adulto, tem idêntica dificuldade em compreender a morte como irreversível, mas se ela já teve um animal de estimação que morreu, pode sempre usar-se o exemplo para explicar-lhe essa irreversibilidade. Também é útil dizer à criança que é natural sentir tristeza e/ou vontade de chorar, ou desejar que o ente querido volte, pois isso vai de encontro ao que ela está a experienciar e dá-lhe a segurança de que os seus sentimentos e emoções são aceites, que é compreendida.

Se a família acredita na vida depois da morte, ou tem crenças religiosas, filosóficas ou outras, deve explicá-las à criança para que esta possa entendê-las e participar no luto familiar. Estas práticas irão ajudar a criança a sentir o seu pesar pelo ente querido, e a expressar as suas emoções e pensamentos de forma saudável.

Por mais doloroso e penoso que seja para o adulto, a criança deve ser informada tão cedo quanto possível, da perda. A verdade é que temos tanto medo de traumatizar a criança que, em geral, optamos por ocultar a verdade à criança dizendo que o ente querido foi viajar, ou que agora é uma estrelinha… e isto é precisamente o que não se deve dizer.

O que não dizer à criança

Quando a pessoa morre, por mais penoso que seja para o adulto, há coisas que nunca deve dizer que:

  • foi viajar – a criança aguarda pelo regresso do ente querido e, quando se apercebe do logro, culpa o adulto pelo engano e perde a confiança.
  • está a dormir – a criança interpreta isso de forma literal e pode suscitar-lhe medo de adormecer e não voltar a acordar.
  • foi para o céu – a criança acredita que o céu é um lugar como os outros e, por conseguinte, aguarda o seu regresso.

O luto deve ser vivenciado em família, portanto a tristeza e a dor devem ser partilhadas e não ocultadas da criança e/ou do adolescente, sob pena de optarem, também elas, por esconder as suas emoções, deixar de fazer perguntas ou expressar os seus sentimentos.

O que a criança necessita para fazer o luto

A criança – ou adolescente –  para elaborar o seu luto de forma saudável, necessita sentir-se amada, protegida, bem nutrida e acolhida no seio da família (ou pelos cuidadores). O processo de luto da criança torna-se mais fácil se esta se sentir segura para falar das suas angústias e dos seus sentimentos. O adolescente, em particular, precisa sentir esta segurança e protecção na medida em que, além das suas próprias mudanças sente que os seus pares não o compreendem.

Em suma, o que as crianças ou os adolescentes precisam para lidar com a perda de uma forma saudável é de ser tratada com honestidade e sinceridade; de se sentir amadas, escutadas e compreendidas. Precisam de sentir que têm liberdade de expressão e alguém que as ouça e compreenda, e que, sempre que queiram, dispõem de um porto de abrigo seguro onde se refugiar.

P.S. Se este artigo lhe suscitou interesse, pesquise outros artigos sobre o tema no blog

Vitimização e Manipulação – São coisas distintas ou subsistem juntas?

9 meses atrás · ·2 comentários

Vitimização e Manipulação – São coisas distintas ou subsistem juntas?

Todos nós, provavelmente, em algum momento da nossa vida, já nos sentimos vítimas. Face a circunstâncias difíceis das nossas vidas em que tivemos de enfrentar experiências dolorosas ou traumáticas, certamente nos sentimos vulneráveis e frágeis, desejosos de cuidado e protecção.

Neste tipo de situações em que existe uma condição objectiva de vitimização, a vítima requer atenção, cuidado, apoio e carinho.  Todavia esta é uma condição passageira, muito diferente daquela em que a pessoa passa a ostentar a condição de vítima como algo definitivo. A isto se chama cultura da Vitimização e da Manipulação emocional.

Comecemos pela Vitimização!

A vitimização ocorre quando o acontecimento traumático se converte em identidade própria da pessoa que o experienciou.  Ao descobrirem que, sendo vítimas, beneficiam do cuidado e atenção permanente dos outros, as pessoas com tendência para a vitimização, entram num ciclo vicioso de chamada de atenção. A vitimização, só por si, não é uma patologia classificada no DSM-5, embora indicie a possibilidade do desenvolvimento de um transtorno paranóico de personalidade.

As pessoas com propensão à vitimização acreditam que tudo que lhes acontece é culpa dos outros ou das circunstâncias. O seu locus de controlo é externo, ou seja, a pessoa não assume a responsabilidade pelas suas próprias acções. Pelo contrário, transfere-a para factores externos, alheios a si própria.

A vitimização é uma estratégia benéfica para quem assume a condição de vítima

A vitimização é, em muitas situações, uma estratégia extremamente benéfica para a pessoa que assume a condição de vítima, porque lhe permite obter privilégios que de outra forma não conseguiria alcançar. A pessoa acaba por contar, de uma forma ou de outra, com a compaixão e a compreensão das outras pessoas, independentemente do que faça.

Com efeito, quem coloque em causa os comportamentos e as acções das supostas vítimas, arrisca-se a ser apontado como desumano ou insensível. Este aspecto abre espaço para uma espécie de permissividade e imunidade, dando total cobertura a tudo o que a vítima diz ou faz, sem questionar. Todavia, a vitimização calculada, seja ela consciente ou inconsciente, encobre uma espécie de chantagem emocional.

A manipulação é uma estratégia da pessoa propensa à vitimização

A manipulação é uma estratégia desenvolvida pela pessoa com propensão para a vitimização, no sentido de ver satisfeitas as suas necessidades de atenção. O manipulador emocional usa a sua condição de vítima para impor os seus desejos e caprichos. O manipulador age de forma a que o outro se sinta culpado e faça tudo o que ele deseja. Esse é o grande problema da manipulação. Por ser um comportamento velado, as pessoas que são manipuladas nem sempre se apercebem do que está realmente a acontecer e acabam por ser iludidas permitindo que os manipuladores façam o que querem.

O manipulador usa a chantagem como forma de comunicação

O manipulador usa a chantagem emocional como forma de comunicação. Quando as outras pessoas não fazem o que ele desejacoloca-as no papel de carrascos, reclamando para si mesmos o papel de vítima. Essa atitude provoca sentimentos de culpa nos outros que tudo farão para corrigir o dano causado, mesmo que tenham de abdicar de si mesmos.

A pessoa manipuladora com tendência à vitimização é capaz de fazer grandes sacrifícios pelos outros, sem que ninguém lhe peça nada, colocando-se assim no papel de vítima da vida. Quando alguém apresenta este tipo de comportamento, estamos perante uma pessoa com baixa auto-estima que só se sente válida quando se sacrifica em prol dos outros.

Nestes casos, trata-se de alguém que não fechou o ciclo de uma experiência traumática ou que perdeu o gosto pela vida. Estas pessoas precisam de apoio urgente. Necessitam de alguém que as compreenda, que seja emocionalmente competente, que lhes mostre compaixão e as ajude a lidar com o seu trauma e a desenvolver maturidade emocional, para mudarem de atitude.

Em conclusão: a cultura da vitimização e da manipulação leva-nos a renunciar aos nossos próprios desejos e necessidades em prol dos outros. Este tipo de comportamento é comum em pessoas emocionalmente imaturas ou com baixo QE. Assim, é importante que estejamos conscientes destes padrões de comportamento, não só para nos protegermos, mas também para ajudarmos a promover a mudança na pessoa que assume o papel de vítima e/ou manipuladora.

Feito com ♥ por Ana Paula Vieira
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